sexta-feira, 21 de novembro de 2008

O Grilo Falante

Acabei de ler, quase de um só fôlego, a notável e maravilhosa obra do genial escritor Jorge Amado, “Capitães da Areia”. Pouco a pouco, e lentamente de folha a folha, a minha vista e o meu cérebro, juntos, navegaram e perderam-se na vastidão das páginas desta grande obra literária, na busca e na perseguição de um mundo que não me era de todo desconhecido nem tão pouco ignorado. Aliás, este fenómeno já antes me havia sucedido, nomeadamente, a quando da leitura de outras obras, onde também nelas, as suas principais personagens, eram crianças com vidas, sonhos e sofrimentos dos homens.

Lembro-me, de noutras semelhantes leituras, de ter sido invadido por uma sensação e por uma idêntica vibração, nomeadamente, quando em tempos apaixonadamente li os “Esteiros” do grande e não menos talentoso romancista Soeiro Pereira Gomes. Talvez por nostalgia, saudades de um passado pobre e parco de carinhos, mas rico em aventuras e cheio de histórias de grandes e piedosos heroísmos, que foram bebidos até à embriaguez nos velhos almanaques da história de Portugal e nos sebentos catecismos da religião vigente.

Esta leitura mágica e enfeitiçada dos “Capitães da Areia”, teve o condão de despertar o meu espírito para um distante e adormecido passado. E nesse acordar, reconheci no holograma que me era projectado, as personagens do “Pedro Bala”, do “Gato”, do “Pirolito”, da “Dora” e do “Professor” como sendo as personagens do “Tó Zé”, do “Gata”, do “Fernando”, da “Belinha Maria Rapaz” e de mim próprio, uma vez que quase que me identifico com o “professor”. Pois tal como ele, ainda os dentes de leite não me tinham caído e eu já sabia como era fértil a minha sonhadora e romântica imaginação de criança. O dom para o desenho e para a pintura que por Deus me foi dado, tal como o dom da personagem com que me identifico, sempre me proporcionou uma imaginação sem fronteiras e sem qualquer limite. Este meu mágico dom, fez com que nunca me faltasse a inspiração, nem tão pouco o talento e o génio para contar histórias de enredo difícil e de encantar. É esse o divino dom, que me permite dar alma aos objectos, voz às árvores, cor à memória e até feitio aos pensamentos, os quais tanto encantaram os meus queridos fantasmas.

Tantos foram os quadros falados e pintados no vento e nas nocturnas brisas, que tanto foram apreciados e aplaudidos por esses queridos duendes do meu passado, que ainda hoje, estes me prendem e me acorrentam com as grilhetas tanto da memória, como as da saudade. Para homenagear essas queridas aparições, não hesito sempre que me seja permitido e possível, contar sempre mais uma história de pasmar e de enfeitiçar desses tempos de menino, onde imperava a fantasia, a liberdade e o riso fácil.

Mas, apesar deste dom que Deus me deu, ser gigante e ser enorme, que inveja eu não tenho daqueles talentosos desenhadores que vestem fatiotas aos animais e dão feitio aos seus pensamentos. Esses não à regionalização!! Esses são os verdadeiros mestres, os verdadeiros magos e os verdadeiros génios na arte de comunicar e satirizar o quotidiano. É preciso de facto ter tanto um espírito tremendamente observador e satírico, como também possuir uma capacidade crítica e autocrítica invulgar e acima da média, para ter a capacidade de vestir os animais e de os fazer viver como os seres humanos. É essa a imaginação superior que tanto gostava e ambicionava de possuir, mesmo no tempo em que era parte integrante de um alegre e solto bando de pardais, que de nosso quase nada tínhamos, e a final de contas hoje verifico, que tudo na verdade tínhamos, porque possuíamos a liberdade, a fantasia de sonhar e a gargalhada livre e farta.

Que arma eu hoje não teria para contribuir para a extinção dessas personagens na vida real, se tal como esses grande artistas, tivesse essas doses industriais de sentido de humor e de fina ironia, para interpretar e satirizar os poderosos deste mundo, criadores e geradores de personagens reais de futuros romances de homens que nunca foram crianças.

Tenho a profunda convicção, que se estes meus muito apreciados e venerados artistas não tivessem esse gigantesco talento, o Grilo falante seria um animal de grande porte, cheio de sentenças para dar e juízos de valor para fornecer. Só por grande ironia é que a voz da consciência aparece personificada na figura de um grilo tão pequeno e insignificante, que ainda por cima dorme apertado numa caixa de fósforos e que até é conservador e antiquado no seu trajar, uma vez que este usa como indumentária, um chapéu alto, uma casaca preta de modelo antigo, bengala e polainas brancas.

Ainda me recordo com grande nitidez, o tempo em que encarnava a personagem do “professor”, e que na minha consciência habitava um grilo semelhante, se não um pouco mais pequeno do que o Grilo da fábula do Pinóquio, pois quase tenho a certeza, que um dedal serviria para seu leito.

Recordo-me também ainda, que a liderança e a conquista destes pequenos corações ricos de sonhos e de aventuras, fora feito à custa de histórias que faziam o meu nariz crescer desmesuradamente. Sei que nessas histórias de pasmar, por vezes me excedia um pouco com um colorido e um picante mais forte do que o aconselhável, pois o grilo falante que me acompanhava no tempo em que eu trepava às árvores, não deixava de a meu lado insistentemente, pular e de gritar na minha mente, que aquilo era imaginação criativa e fértil a mais, e tal imaginação tinha limites. Mas a credulidade daqueles puros olhares, levavam-me muitas vezes a navegar no imaginário e até no esotérico. Por isso, nunca nos entendemos, havia um descompasso permanente nos seus passos e nas acções que eu realizava. Assim, quando contava uma história para os meus companheiros de aventuras, geralmente como um crónico e já habitual tique, afastava com a minha mão, esse importuno e maçador que não parava de gritar e de atormentar a minha pobre mente.

Ainda hoje, talvez como herança desse passado ainda nítido, penso, que para nossa defesa e protecção, quantas vezes não temos a necessidade de fingir que não ouvimos a voz da nossa consciência. E quantas vezes, não temos necessidade de a ignorar, apesar de todos os avisos e de todos os sinais de alerta que o nosso grilo falante nos faça?

Eu acredito, que existem mentiras boas. Porque acredito que nem tudo pode ser revelado e dito...Mentir toda gente mente. Quem diz que nunca mentiu é mentiroso. Mentiras pequeninas ou grandes, inocentes ou culpadas, boas ou carregadas de malícia, omissões ou ausências, são alguns dos numerosos membros da grande família das mentiras, que em determinados momentos da nossa vida, nos assaltam a consciência, nos estrangulam o coração e nos ferem a alma porque as vicissitudes da vida nos obrigam a utilizar esses meios que o nosso grilo falante tanto reprova.

As mentirinhas que foram responsáveis, nesse tempo de menino, por o meu nariz crescer, crescer, eram mentiras boas e piedosas, pois não faziam mal a ninguém, antes pelo contrário, deixava nos meus companheiros os seu olhos esbugalhados de românticos sonhos e de exemplos de acções que os tornavam mais determinados e até mais valentes do que nunca.

Agora, que acabei de ler este cofre depositário da sabedoria dos meninos que nada têm para além dos seus próprios sonhos, e que me fez recordar através das poeiras do tempo o meu já longínquo passado, volto a colocá-lo com um carinho muito especial de novo na estante, para num outro dia, voltar a acordar estes queridos fantasmas que adormecem nesta soberba e magnífica obra, para que dessa forma, possa vir a matar as saudades de uma infância que não ouso qualificar, ao mesmo tempo, que estes queridos duendes me dão a coragem e a determinação para contribuir, que outras crianças não venham a ser inspiradoras de personagens de outros romances, cujos heróis venham a ser as crianças que nunca tiveram infância.

A Solidariedade dos Gansos Selvagens

Numa manhã pachorrenta e solarenga, estava eu de costas deitado no verde e húmido tapete de relva, junto aos caniços e juncos que bordejavam uma represa farta de carpas, à espera que uma dessas tolas abocanhasse o isco que esperneava no meu anzol, quando o ruidoso grasnar de gansos selvagens me despertou da apatia e da sonolência, que aquele baixo e doentio sol primaveril me causava. Não muito alto, em contraste com um céu de um azul ciano profundo, brilhante e sem nuvens, pude ver um bando de brancos gansos selvagens que voavam numa formação em forma de um “V”.

O meu olhar inquisidor, intrigado e curioso, ficou desde logo preso àquela formação de emplumados e esguios viajantes de grandes distâncias, e lembro-me de me ter interrogado, qual seria a razão que os levava a escolher aquela peculiar e característica forma de voar? Esmiucei a minha atenção e assim pude deduzir, que à medida que cada uma daquelas aves batia as suas asas, ela criava uma base de sustentação para a ave seguinte, e assim sucessivamente de ave para ave. Ora, aquelas ruidosas e esguias aves ao escolherem voar em formação na forma de um “V”, possibilitavam a todo o bando voar pelo menos o dobro da distância, que qualquer uma delas poderia voar isoladamente.

Reparei ainda, que quando algum ganso saía daquela formação, ele sentia repentinamente a resistência do ar e por isso, rapidamente retornava à formação, para dela tirar a vantagem do poder de sustentação do ganso que voava imediatamente à sua frente.

Em determinado momento, o ganso líder exausto e cansado, deixou-se ficar para trás, até atingir a traseira de uma das extremidade da formação, enquanto que um outro ganso assumiu de imediato o vértice da mesma.

Pude ainda reparar que naquele bando de gansos selvagens, as aves da frente levavam os bicos de um forte laranja completamente fechados, enquanto que os gansos de trás os levavam bem abertos, para grasnarem de forma ruidosa, para que desse modo, os gansos da frente se sentissem mais motivados a manterem o ritmo, a força e a velocidade do voo.

O exemplo da forma de voar deste bando de gansos selvagens, bem poderia ser um exemplo a seguir pela sociedade humana, pois tal como eles, todos nós necessitamos de ser apoiados, estimulados e encorajados. E tal como eles também, se partilharmos com outra pessoa a direcção comum a um determinado objectivo, com o espírito de uma verdadeira equipa, temos fortes probabilidades de chegar ao nosso destino, sem o dispêndio de muitas energias, sem grande esforço e muito mais depressa, porque nos apoiamos na confiança e na força anímica que é gerada uns nos outros.

Quando “viajamos” na mesma direcção com outra pessoa que compartilha os mesmos objectivos e os mesmos ideais e interesses que os nossos, transmitimos uma à outra a necessária força, o indispensável poder e a absoluta segurança. E tal como o líder ganso selvagem, deveremos revezar os companheiros que num trabalho árduo, ficaram exaustos e cansados, para que desse modo, estes possam retemperar as sua forças e juntos alcançarmos o objectivo estrategicamente planeado. Sigamos por isso o bom exemplo da forma de voar dos gansos selvagens.

As Testemunhas

O manto da noite de um azul prussiano do mais profundo dentro da sua gama, lentamente cobriu a desértica e agreste paisagem. Rajadas cortantes do vento norte fustigavam com impiedade os três vultos, cujas silhuetas em visível esforço, se desenhavam na linha do horizonte. um deles dobrado sobre si, no dorso do que parecia ser um jumento, e o outro, com aparente dificuldade caminhava na dianteira deste, a fim de procurar e de escolher o melhor caminho, para atravessarem aquela deserta e inóspita paisagem.

Depois de muito caminharem pelas vastidões desertas de almas, paradeiro dos medos e das assombrações, numa quase total invisibilidade e num grande negrume, avistaram muito ao longe, em forma de concha de luz, as domésticas e bruxuleantes luzes de azeite de uma povoação. Com a visão deste oásis de esperança e de vida, fizeram de imediato rumo para este farol, com uma renovada decisão e um novo alento. Já em Belém, nome que era dado àquela povoação salpicada de pirilampos mágicos, uma porta, um pedido, uma recusa. Outra porta, outra solicitação e outra rejeição. E de recusa em recusa, de rejeição em rejeição, estes cansados e cambaleantes vultos caminharam pela noite adentro, batendo indiscriminadamente em todas as portas por onde passavam, e todas as portas teimosamente se lhes fechavam, até que finalmente tiveram acolhimento num lugar onde não havia portas. Num lugar em que o seu único hospedeiro não recusou dividir com eles a sua morada, e até mesmo os seus parcos haveres. Uma vaca de pêlo com a cor do fogo e longos chifres do mais puro branco, não hesitou em lhes oferecer o seu estábulo, a sua manjedoira, o seu feno e até mesmo o calor do seu próprio corpo.

Pela acção acolhedora e hospitaleira deste descendente de ápis, nessa fria e gélida noite desse distante Dezembro, que viria a dividir para sempre os tempos, este, juntamente com o jumento cujo o pêlo lembrava um adiantado crepúsculo, de orelhas compridas, auréolas brancas nos seus dóceis olhos e de crina curta, seriam as únicas testemunhas do maior acontecimento e mistério da história da humanidade. Pois eles, naquele obscuro e frio presépio, que viria ano após ano a ser lembrado em nossos próprios presépios, tiveram a imensurável honra e o grande privilégio de presenciar a Maria Santíssima a dar à luz a Luz.

De geração em geração, todos os presépios que construímos desde o tempo em que vestia-mos calções e trepava-mos às árvores, são em memória deste místico e grande acontecimento. E todos eles, mesmo que diferentes no seu cenário, têm em comum a presença das referidas testemunhas, as quais representam tanto no nosso intimo, como no nosso imaginário, uma: a força, a terra e a luz, e a outra: a noite, o saber oculto, a preserverância e o mistério. Pela sua pose de descanso e de descontracção, o quadro que herdamos do primeiro Natal, leva-nos a interpretar e a concluir, que foram estas dóceis criaturas de Deus, que com o calor dos seus corpos protegeram e salvaram o Jesus Menino dos gélidos e cutilantes frios, que fustigavam e trespassavam as frinchas das paredes feitas de madeiros mal talhados, daquele pobre e húmido estábulo de Belém.

No humilde presépio que deu origem a todos os outros presépios, a vaca e o jumento tomaram o lugar que estava destinado aos homens para a recepção do Deus feito homem. Por isso, eles são dignos de estarem tanto nos nossos presépios como a estarem nas nossas mentes. Tanto mais, que a eles poderemos também lhes atribuir o simbolismo de representarem tanto o povo eleito, como também o de representarem o povo pagão, ou seja, eles são o símbolo da humanidade universal. O jumento, que fora o eleito para carregar e transportar a Virgem Santíssima em estado de graça, numa penosa e difícil caminhada pelas vastidões do desconhecido, é o símbolo do povo cristão. A vaca, por sua vez, que lembra em todas as vertentes o boi ápis, o qual foi por muito tempo o símbolo da devoção da humanidade aos valores terrenos, é o símbolo do povo não cristão. Ao representarmos juntos estes dois símbolos nos nossos presépios, estamos a representar nada mais, nada menos, do que a humanidade universal sem diferenças de credos, sem diferenças de cor, sem diferenças de raça.

Desde esse longínquo dia do nascimento de Jesus e durante toda a Sua vida de peregrinação e pregação, Este não fez mais senão repetir o gesto do bom São José. Bater com insistência e perseverância à porta das nossas almas, solicitando-lhes guarida e hospitalidade, por forma a que com a sua Luz a elas se funda em uma eternidade de valores e de princípios, daí, Jesus nos ter transmitido “Eis que estou às portas e bato; se alguém ouvir minha voz e me abrir a porta, eu entrarei e cearei com ele e ele comigo”.

O dia do nascimento de Jesus aqui retractado, foi como que o auspicio e o presságio de toda a sua vida, uma vez que ao longo da Sua curta existência, houve uma sucessão de recusas e de rejeições. Pelas narrações e registos bíblicos que nos chegaram até aos nossos dias, temos o conhecimento que houve a recusa dos escribas, dos fariseus, do povo judeu, dos gentios e até mesmo, no momento culminante e auge da Sua vida, teve a negação e a recusa dos Seus próprios discípulos e dos Seus próprios apóstolos.

De recusa em recusa, de rejeição em rejeição, o Menino Jesus encontrara leito apenas entre os fenos e as palhas duma manjedoira de um pobre estábulo de Belém. De negação em negação, de recusa em recusa, Jesus apenas encontrou repouso no madeiro que Lhe serviu de Cruz no Calvário.

Saibamos então abrir as portas dos nossos corações, quando Jesus junto a estas lhes bate, e saibamos também O receber e O acolher, como O souberam receber e acolher a vaca e o jumento, naquela distante, gélida e fria noite de Dezembro.

Um Sonho no Centro de um Pesadelo

Naquela manhã de um frio dia de Dezembro, em que os raios de sol timidamente lambiam e aqueciam o meu rosto, e o gélido vento libertinamente desgrenhava e desalinhava o meu cabelo em múltiplas madeixas, a traição silenciosamente rondava de perto o meu coração. De súbito, na boca do meu estômago, uma lenta e crescente dor aguda repticianamente marcava a sua nefasta presença, confundindo a minha ingénua mente com a ingestão de alimentos já fora de prazo e por isso, confundiu-a e enganou-a com uma dor de passagem e sem qualquer importância. Mas, a sua agressividade e violência desmentia a inocência com que esta se tinha aproximado e invadido todo o meu ser. Tal era a sua ferocidade e a sua crueldade, que mesmo com os braços tenazmente cruzados sobre o meu peito num forte abraço e dobrado sobre este, esta teimava em não abrandar, antes pelo contrário, crescia desmesuradamente e agigantava-se num fogo infernal e insustentável, como que a cumprir uma terrível e brutal sentença de um maléfico e cruel deus. Os meus olhos desesperados e aquosos eram como os de uma criança, que perdida no desconhecido, varriam incessantemente o horizonte na busca do socorro, que demorava e que tardava. Mas, aquele polvo de tentáculos terríveis envolveu todo o meu peito, como seu senhor e seu dono, numa gigantesca fornalha de dor e de sofrimento, que mais parecia permanentes torcicolos que nos deixam à beira da loucura e da demência, por ausência de qualquer outro raciocínio lógico, que não seja o desaparecimento daquela terrível e insuportável dor.

Amarrado e afivelado à maca da ambulância, sem mais nenhum cuidado que não este, a esperança de sobrevivência a este feroz e traiçoeiro ataque renascia. Naquele leito de dor e de esperança, senti que a vida se me desvaía, pouco a pouco, e por isso, senti que o meu fim inexoravelmente estava próximo, e tanto mais, que os sinais desse fim eram por demais evidentes. Primeiro, pelo completo desligar da audição, a qual, no início me começou por parecer, que tinha mergulhado os ouvidos nas profundezas oceânicas e por esse facto, a distorção dos sons se justificava. Não tardou muito, que esses distorcidos e longínquos sons, que mais pareciam estarem a ser difundidos através do vácuo, por completo se extinguissem num total e permanente silêncio. Segundo sinal, as forças, que também elas se me despediram, deixando com a sua partida, o meu corpo completamente inerte, totalmente abandonado e sem qualquer movimento ou reacção que lhe dessem sinal de vida. Por último, a visão das cores da vida que nos é tão amada e querida, começou por desfocar toda a imagem que me envolvia, transformando-a numa esbranquiçada névoa disforme, que lentamente se escureceu até à total invasão da profunda escuridão, paradeiro dos medos e dos mistérios. Todos os órgãos, um a um, depois de se despedirem de mim, se desligaram e pararam.

Só a minha mente estava no seu estado mais puro e mais perfeito, no entanto, ela estava ocupadíssima a recordar tudo quanto de belo deixava neste mundo, como que a elaborar um balanço das boas e das más acções que foram praticadas nesta vida. O resultado, pelo sulco e o rasto deixado por alguma lágrimas que brotaram dos meus olhos baços e vítreos já sem vida, era de sinal positivo e o único sinal de vida que o meu inerte corpo emanava. Embora estivesse mergulhado na mais profunda das escuridões e amarrado àquele leito de sofrimento e de dor, que parecia brevemente vir a ser um leito de infortúnio e de morte, eu ainda tinha alguns restos de esperança na sobrevivência, pois sabia, que aquela viatura branca com a cruz vermelha pintada nas suas portas, estava nesse momento a percorrer de forma tresloucada e louca as ruas de Lisboa, com os seus estridentes gritos de agonia, de aflição e de desespero, provenientes das suas sirenes, na tentativa máxima e última de contrariar o presságio que parecia mais que certo. Em meu redor habitava o total silêncio, e a mais profunda das escuridões era a minha companheira. Ao contrário do que se poderia esperar numa destas desesperadas e dramáticas situações, eu não estava aterrorizado e a ausência do medo em todo o meu ser era total e por completo. Lembro-me, que apenas me veio à mente, que iria por fim enfrentar o desconhecido e desvendar o mistério de todos os tempos. Alguma coisa no meu interior me dizia, que mesmo estando imerso na mais profunda das escuridões e mergulhado no maior dos silêncios, eu estava em segurança, pois eu senti que apesar de ter sido projectado para uma outra desconhecida dimensão, nesse lugar, eu estava entre amigos. E na verdade, todo o meu raciocínio estava certo e correcto. Pois eu conseguia ouvir agora em meu redor vozes murmuradas e sons abafados, sinais evidentes de que não estava só.

Uma mão firme segurou e agarrou a minha mão, guiou os meus passos no desconhecido, ao mesmo tempo que numa voz serena, segura e confiante, respondia às muitas perguntas que me faziam, e tanto pela rectidão, como pela profundidade e a veracidade dessas respostas, eu estava sinceramente imbuído e tomado pela importância e pela majestade do momento.

Através do contacto e da pressão dessa mão amiga, que me segurava e que me guiava os passos no desconhecido, eu senti sempre a presença da segurança e da tranquilidade, mesmo no percurso de algumas desconhecidas e acidentadas viagens que fiz. Pois, eu nessas desconhecidas viagens, senti sempre que estava a ser bem conduzido e guiado, e por isso as enfrentei com a determinação, a tenacidade e a coragem indispensável para ultrapassar e vencer os desconhecidos obstáculos e perigos, que em cada momento me esperavam. Assim, em segurança, caminhei por estranhos e bizarros lugares, através tanto de sinuosos e tortuosos caminhos, como por suaves declives e largas avenidas. Sempre que regressei de cada uma dessas misteriosas e difíceis viagens, fui sempre amparado e confortado por desconhecidos, que ao meu ouvido sussurraram palavras murmuradas que me transmitiam conforto e estimulo, ao mesmo tempo, que me transmitiam estar bem acompanhado e de estar sempre em segurança. Mas, o mais estranho e o mais difícil de compreender, é que mesmo que nada me fosse sussurrado, mesmo que nada me fosse dito, eu tinha a sensação de estar amparado, e de estar a ser assistido com a mestria e a segurança de quem sabia o que estava a fazer.

É certo, que eu desejava mais do que tudo, obter a necessária luz que findasse aquela total escuridão, que me envolvia nas permanentes trevas, mas não por desespero ou por medo, mas sim para poder ver aquelas pessoas que sentia serem minhas amigas. Eu desejava e queria a luz, porque algo no meu interior me dizia, que ao recebe-la, esta mudaria profundamente a minha vida, ela mudaria por completo os meus pensamentos e toda a minha forma de estar e ser, pois eu fazia parte de uma outra dimensão e quiçá no princípio de uma outra vida através da reencarnação.

E o meu desejo foi ouvido e foi correctamente interpretado e talvez por isso, este foi de imediato cumprido. A luz com toda a sua magnificência e imponência me foi restituída. E nesse estado de graça, repentinamente me vi num imenso templo, que representava todo o nosso universo. As suas dimensões não tinham limite nem fim, uma vez que estas iam do Norte ao Sul, do Ocidente ao Oriente, do Centro da Terra ao Céu infinito. Dentro deste Templo, muitas pessoas me encaravam, com os seus semblantes tranquilos e suaves, que embora me fossem semblantes desconhecidos, me eram estranhamente familiares, como se de antigos familiares e de amigos se tratassem.

Não eram muitos os rostos presentes naquela celestial recepção, mas estranhamente também me pareciam ser milhões e por isso representavam todo o universo. Estes serenos vultos, também estranhamente me pareciam mais do que vultos de pessoas comuns, mais do que vultos de pessoas amigas... eles me pareciam vultos de irmãos!

Um destes queridos vultos irmãos, envolto e engalanado por uma brilhante aura, que me provava estar inspirado por algo de maior e de mais Divino, me explicou com a doçura e a candura dos homens bons, onde estava e quais foram as razões que me levavam àquele lugar sagrado. Num gesto que abrangeu todo aquele estranho templo, ele me explicou com a paciência e o saber dos mestres, que as dimensões sem fim daquele templo, representavam todo o infinito universo. Eu olhei surpreso e curioso em redor daquele lugar sagrado a fim de confirmar tais dimensões, e de imediato fui atraído por uma forte e poderosa luz que vinha do Oriente, local onde se encontrava o trono do irmão dotado da auréola mágica, o qual, compreendendo o meu fascínio e a minha curiosidade para tudo o que me rodeava, me esclareceu dizendo, que aquela sublime e magnífica luminosidade provinha do Sol, o nosso astro rei, e que aquela luz simbolizava o conhecimento humano e a Doutrina do Amor, que nos havia sido presenteada nos começos dos tempos por Deus.

O meu encanto e entusiasmo era tamanho, que era visível a minha ansiedade e a minha avidez por conhecer com a profundidade dos cientistas, aquele maravilhoso e encantador lugar sagrado. Com um sorriso condescendente, esse irmão que tinha assento no Oriente e auréola de luz que lhe conferia o poder da divindade, me explicou com a sabedoria e a paciência de quem muito sabe, tudo o que de estranho me cercava e me rodeava.

Ainda me contou este mestre do conhecimento e do saber, uma estranha história a respeito do Tabernáculo erigido no deserto por Moisés, o qual foi a fonte de inspiração do local onde me encontrava. Contou-me ainda este irmão dotado de luz mágica, que o sábio Salomão, querendo glorificar o Pai Eterno, criador dos mundos, erigiu num certo dia um belo e magnífico templo, apoiado sobre três grandes pilares, denominados de Sabedoria, de Força e de Beleza. Nesse templo celestial, vi claramente esses três pilares, que estavam representados por irmãos iguais a mim, mas dotados de uma unção especial, de uma luz diferente e com uma auréola que os diferenciava dos demais, conferindo-lhes por isso maior altivez, maior dignidade e maior majestade. Esses queridos irmãos, que estavam sentados em tronos que representavam as colunas Jônica, Dórica e Coríntia, as quais alegoricamente representavam os pilares do Templo de Salomão, eram também eles neste templo de maravilha os seus pilares mestre.

Sobre as nossas cabeças, pude ainda apreciar uma abóbada de um profundo azul celeste, pontilhada por faiscantes e encandescentes micro pontos de luz, que me dava a impressão e a sensação de não ser tangível, nem tão pouco de ser composta por matéria. Olhei-a com a minúcia de quem a estuda e de quem a analisa, e logo me deu a impressão e a sensação de que estava numa alta montanha, contemplando do seu cimo, o infinito azul céu estrelado. Percebi e entendi de imediato, que a minha missão naquele lugar, era atingir a plenitude deste maravilhoso céu infinito, afim de chegar cada vez mais perto do nosso Criador. Por momentos, hesitei um pouco na formulação da pergunta, afinal de contas, é sempre muito difícil interpretarmos aquilo que vemos pela primeira vez, e por isso, com alguma timidez perguntei ao irmão que era também o meu guia, o que deveria eu fazer para alcançar aquelas estrelas tão brilhantes e tão distantes?

Ainda não tinha eu terminado a pergunta e sob um clarão de luz intensa, surgiu do nada uma luminosa escada, com milhares e milhares de degraus, e em cada um deles, tantos irmãos amigos quanto estes, convidando-me com gestos prazenteiros e de gentileza a iniciar a escalada daquela luminosa escada sem fim. Com a pressa dos principiantes, tentei galgar rapidamente os degraus. Mas, fui delicadamente barrado pelo primeiro irmão amigo, que me informou que naquela escada eu a deveria subir, degrau a degrau, até atingir o seu cume, que era o local onde estava o Pai eterno, mas que para isso, eu precisaria de muito tempo, de muita dedicação e de muita aplicação nas sucessivas reencarnações que me esperavam. No entanto, o primeiro degrau, conquistei-o ali mesmo tal era a minha pressa e a minha ansiedade.

A tranquilidade que me envolvia naquele templo era absoluta e total. Embora a escada continuasse ali, fulgurante e luminosa, com um irmão amigo em cada um dos seus degraus, o profundo silêncio era soberano e ali reinava em plenitude. Aquela escada era de dimensões desmesuradas e descomunais, uma vez que descia do infinito celeste e terminava num pavimento constituído por losangos brancos e pretos intercalados entre si. Olhados de cima do primeiro degrau daquela luminosa escada, parecia-me um tabuleiro de xadrez, onde em remotos tempos tanto me perdi em estratégias de combate e de vitória. Tive a sensação de que estes losangos, mesmo que diferentes, opostos e antagónicos nas suas cores, cada um deles se completava e vice versa. E tal como aqueles losangos, todos nós temos as nossas diferenças, no entanto estamos unidos em comunhão e em fraternidade, uma vez, que o nosso Criador foi um só. Senti uma grande felicidade quando o meu guia, parecendo adivinhar os meus pensamentos, concordou comigo, e me confidenciou que tal pavimento representava na verdade, a harmonia e a coesão de todos os que ali se encontravam.

Sempre com este irmão como uma sombra a meu lado, conheci muitos detalhes deste majestoso templo. Com a sua ajuda cheguei mesmo a descodificar misteriosos e enigmáticos símbolos, que representavam tanto a moral, como a justiça e a rectidão de que todo o ser humano se deveria pautar na sua curta e breve existência por este mundo. Eu estava de facto profundamente impressionado e glorificado pelo ensinamento e a riqueza ímpar que recebia daquele meu guia irmão amigo.

Depois destes sublimes ensinamentos, fui conduzido a um dos cantos daquele mágico templo, e fui apresentado a uma pedra escura, bruta e disforme. O meu guia perguntou-me o que eu via nela. À primeira vista, a resposta que me parecia mais óbvia e lógica, uma vez que simplesmente nela via uma pedra bruta e nada mais do que isso, seria responder que era uma pedra bruta e disforme. Mas dando ouvidos às sensações e vibrações que do meu coração emanavam, respondi que me via retractado naquela pedra, uma vez que ela estava na forma que o Criador me havia concebido. Uma pedra bruta e disforme, que em mãos hábeis me transformaria numa pedra bem talhada e acabada, que viria a servir como material de construção bom e importante, para a edificação de um mundo melhor na reencarnação que já se me adivinhava. Compreendi sem a necessidade de uma explicação adicional, que a mão mais hábil para polir e talhar aquela disforme pedra, era justamente a minha. Pois em mim estavam encerradas e reunidas todas as necessárias ferramentas, para melhor executar aquela tarefa, que havia sido determinada pelo Criador.

Aquele irmão possuidor da sabedoria divina, explicou-me ainda com a calma e a paz dos anjos, que a energia proveniente da luz do Oriente, tanto nos outorgava saúde e bem-estar, como nos convertia em livros abertos, onde em uns estaria escrito o passado, noutros estaria escrito o presente, e em outros ainda estaria escrito o futuro. Deu-me ainda a perceber esta sombra amiga, que quando conseguíssemos encontrar e ler esses livros mágicos do conhecimento. Então, estaríamos imbuídos da chama da vida eterna, e por esse facto, seríamos deuses que iluminariam o caminho de outros homens.

Disse-me ainda esse irmão guia amigo, que no homem o seu sémen o aproximava de Deus, em virtude do seu poder criador lhe ser a Ele comparável. Perante a minha estupefacção e até mesmo algum pudor, este irmão amigo ainda me confidenciou, que naquele fluído da germinação e da criação do homem, para além de ser um tónico purificador dos seus músculos e do seu sangue, habitavam nele os anjos da luz e os arcanjos das trevas. Disse-me: que os anjos como criaturas de luz que eram, tanto representavam a energia luminosa e criadora de Deus, como eram também possuidores da sublime sabedoria Divina. Ao passo, que os arcanjos que nesse fluido também habitam, representam a tenebrosa energia que é a mais nociva sabedoria que habita na mente humana, e que somente pela iniciação se poderia romper as trevas da ignorância e a barbárie que habita no espírito de cada homem.

Naquele templo etéreo, eu sentia que estava realmente entre irmãos, e que aqueles momentos eram para mim mágicos e sublimes de conhecimento e de saber. Olhei o meu passado com saudade, não nego, e logo compreendi, que tinha deixado a minha obra inacabada, uma vez que a construção do meu templo interior ainda apenas estava nos seus alicerces e por isso, àqueles meus irmãos celestiais humildemente confessei a minha falha, e com modéstia lhes implorei a permissão do meu regresso ao mundo dos vivos, a fim de completar a obra que havia deixado incompleta e inacabada. O sorriso do irmão mestre e meu guia, foi o evidente sinal da sua concordância e da aceitação dessa benesse e com a sua mão ele cobriu os meus olhos, que voltaram a mergulhar na mais intensa e profunda das escuridões.

Do profundo negrume, surgiu uma branca e luminosa névoa, que pouco a pouco fez os vultos em meu redor tomarem cor, nitidez e forma, ao mesmo tempo que sentia umas ligeiras cócegas no meu peito ainda inerte e sem vida. De súbito, uma potente luz jorrou e fulminou os meus olhos ao mesmo tempo que dava forma clara aos rostos transpirados e suados, com gorros e máscaras verdes, que debruçados sobre mim freneticamente me aplicavam desesperadamente e cadenciadamente murros e choque eléctricos. Uma voz, muito parecida com a do meu Divino irmão, disse-me com a mesma doçura, com a mesma calma e com a mesma segurança, que eu havia tido um enfarte seguido de paragem cardíaca, mas que agora tudo estava bem, que fechasse os olhos e descansasse com tranquilidade e sossego, pois eles velariam por mim. Eu, completamente esgotado e exausto das sucessivas viagens que havia efectuado, prontamente lhe obedeci e fechei os olhos. Quando despertei nos cuidados intensivos de um grande hospital de Lisboa, revivi os ensinamentos que me foram dados, naquilo que agora me parecia ter sido um agradável sonho. Hoje, estou convicto da graça que me foi atribuída a fim de completar a minha obra que continua ainda inacabada, embora esteja sempre pronto para voltar a esse templo sagrado, a fim de prestar contas tanto sobre o meu templo interno, como a prestar contas sobre o meu templo externo, a esse meu querido irmão amigo, que tem assento no oriente desse templo mágico e que me espera.

O Relicário

Numa certa manhã, depois de uma noite de um sono agitado e acordado, a minha consciência repticianamente me confidenciou, que o meu espírito devasso e vagabundo, tinha nessa noite sorrateiramente se libertado do meu corpo, para vaguear por ternas e saudosas recordações e que por fim vencido por estas, tinha acabado por visitar um acolhedor apartamento amigo. Como dei alguma atenção a esta alcoviteira notícia, vesperinamente e com um forte sibilar, esta continuou a me relatar com esmero e detalhe, as nocturnas aventuras do meu libertino e vadio espírito. Assim, por esta insânia e demente confidência, fiquei a saber que nesse encantador apartamento amigo, o meu espírito tal como uma vulgar traça, tinha sido atraído por uma mortiça e bruxuleante luz, que tremidamente rodopiava numa pequena lamparina, projectando sombras que esvoaçavam na parede em movimentos mágicos e dançarinos.

Sei por esta confidente, que ele foi atraído por essa mágica e feiticeira luz de forma dominante e absoluta, como também sei por esta voz da minha consciência, que este, tinha ficado muito curioso e por isso se aproximou para observar aquilo que lhe parecia ser um santuário, e com muito respeito e curiosidade, observou com atenção e pormenor a disposição na parede, das pesadas molduras douradas com diplomas e comendas, como também observou com o mesmo cuidado as molduras com algumas medalhas contendo inscrições de homenagens e agradecimentos, cujos textos com detalhe não se apercebeu, devido à escassez da iluminação daquele espaço de respeito e austeridade.

Por baixo dessa galeria de honrarias e de mercês honoríficas, estava uma pequena credência de forma triangular, onde poisava a hipnótica e narcotizante lamparina, que por sua vez ao seu lado esquerdo descansava um Malhete de ébano, e ao seu lado direito, uma trolha em metal cor de prata reluzente. Na sua frente, com um polimento luzidio e em relevo filigranado, conferindo-lhe por isso nobreza e majestade, estava um Compasso sobreposto a um Esquadro. Por detrás desta lâmpada de azeite, encontrava-se um desbotado avental de Mestre Instalado, moldurado com requinte e bom gosto.

Disse-me ao meu ouvido a voz víborina, que o meu espírito tinha ficado junto daquele relicário algum tempo, totalmente imóvel e profundamente absorto no enlevo da contemplação e que depois da respeitosa e contrita meditação, o meu espírito tinha ficado preso a uma saudade sem limites e por isso, procurou comunicar com o espírito da inquilina daquele apartamento amigo. O espírito desta, reconhecendo no visitante um amigo, soltou as amarras do seu abandono e do seu isolamento e segredou-lhe, que aquele altar de recordação era a sua singela homenagem a quem muito amou e de quem muito foi amada, uma vez que aqueles objectos tinham pertencido ao seu falecido marido, os quais tinham sido por ele em vida muito queridos e estimados.

A viúva desse meu incógnito amigo, tem um espírito muito comunicativo e farto de palavras, por isso, com lentas pinceladas recordou-lhe o perfil do homem, do esposo, do pai e do amigo que este em vida fora, deixando por isso com a sua partida um vazio impreenchível em seu saudoso coração. Com a recordação da personalidade do homem que o meu desfocado amigo fora em vida o meu espírito, sabendo que este fora uma pessoa admirável. Um ser humano extraordinário; um profissional exemplar, enfim, um santo homem, mergulhou num mar de imensa saudade. Apesar de absorvido em nostálgicas e saudosas lembranças, este meu sensível e impressionável espirito ainda conseguiu ouvir do inconsolado espírito da companheira desse meu brumoso amigo dizer em tom amoroso mas com firmeza, que Deus o tinha levado para junto de Si, que Deus tinha levado o seu santo, que a sua luz se tinha fundido na luz de Deus, que se tinha fundido na luz do Eterno Oriente e que por essa razão, aquela lâmpada votiva permaneceria acesa todo o tempo, dia e noite, para que iluminando as coisas que ele tanto tinha prezado em vida, fosse para este um farol e um guia para o seu espírito, até ao dia, a que a ele se venha novamente a unir, se o Altíssimo lhe vier a conceder essa graça. Até ao seu esperançoso dia de redenção, este solitário espírito confidenciou-lhe que nos momentos de desconsolo da vida, aquele altar seria o local privilegiado para meditar, para orar e para sentir a presença do seu amado, do seu santo.

Depois de uma pequena pausa reflexiva, este espírito abandonado e esquecido pelo tempo e pelos amigos de outrora, confidenciou ao meu, como se este nunca o tivesse sabido, quase em sussurro, entre o altivo e o circunspecto, que o seu marido tinha sido Maçom. Profundo silêncio meditativo daí adveio, como se naquele instante tivesse sido desvendado um profundo mistério, um segredo impenetrável se tivesse revelado. Aquele espírito cheio de saudade debicando delicadamente e suavemente as palavras, não se cansava de repetir com a voz murmurada e enternecida, mas segura e contrita, como a reviver um passado de ternura e de bem amada, que o seu marido fora um Maçom. Só o silêncio do meu espírito foi capaz de traduzir o diálogo e os fluidos de sentimentos e emoções que entre eles se estabeleceu.

Contou-me ainda a voz intriguista da minha consciência, que o meu espírito na despedida ainda se voltou mais do que uma vez, e por último, com um leve aceno de mão, despediu-se daqueles dois santuários. Um vivo, na sua frente, a iluminar a noite com a luz do seu espectro e com a aura da sua santidade. O outro, revivido e perpetuado no simbolismo daquelas relíquias de um passado e de uma vida exemplar, iluminadas a um canto daquele apartamento amigo. No meu espírito, por algum tempo ainda, matraqueou o eco das ultimas palavras daquele santo espectro amigo. Fora um maçom! Não! É um maçom noutra dimensão da vida! Pois a Maçonaria é a sublime luz que alumia os caminhos do eterno existir. Ela ensina o caminho para o eterno, ela ensina o caminho para a luz do Eterno Oriente.

Já a manhã há muito que não era uma criança, quando a reviver novamente a fantástica história que o meu espírito nessa noite fora protagonista, fiquei muito confuso com o relato da minha mexeriqueira consciência e por isso a indaguei com teimosa persistência da veracidade daquela soturna e lúgubre história. Pois agora estava consciente que aquele revivido quadro não se poderia ter pintado com as cores do verbo no tempo do passado, como também não se poderá pintar com as cores do verbo no tempo do presente, então este só poderá vir a ser pintado com as cores do verbo no tempo do futuro. Com as cores do que ainda não aconteceu. Com as cores do que acontecerá apenas um pouco mais tarde. Então... a cena aqui retractada é apenas uma premeditação, ou quiçá o fruto da admiração e do reconhecimento que nutro pelo nobre carácter de muitos dos irmãos presentes nesta Loja, e para eles desejo, que a sabedoria de Salomão continua a os inspirar, que a Força de Hiram, Rei de Tiro, os mantenha e que a beleza do Mestre Hiram Abi adorne os seus pensamentos, as suas palavras, os seus gestos e atitudes, por forma a que continuem na senda da sua perfeição e do amor ao próximo. Que Deus os ajude nessa nobre e santa missão!

O Mocho, a Coruja e o Rouxinol

Certo dia, no interior de um já não muito novo campanário esguio e de cúpula piramidal, um velho e sábio mocho foi despertado da sua letargia, pelo ácido diálogo que se estava a desenrolar em forma de esgrima, entre uma coruja inquilina e sua vizinha daquele lugar já de algumas invernias, e um rouxinol ainda há pouco tempo forasteiro daquelas paragens.

Dizia o rouxinol naquele momento para a coruja, em desenvoltos e seguros trinados de grande sonoridade:

«eu represento a beleza, a graça, o sol, e a vida, enquanto tu feia coruja, simbolizas a misteriosa noite, o teu nocturno piar simboliza a morte, e todos os homens temem o desenho da tua silhueta numa noite de lua cheia, porque representas o mal e só por isso, tu és o símbolo dos seus mais tenebrosos pesadelos. O homem não gosta de ti! Coruja. Ele só se sente feliz e satisfeito quando a tua silhueta não apareça na sua retina. Ele só se sente feliz quando o teu piar se ausenta dos seus ouvidos. Ele só se sente satisfeito quando a tua imagem se afasta para sempre da sua mente.»

«Enganas-te palhaço pintado, ele sabe que eu vejo no escuro, por isso, para ele eu simbolizo a filosofia, que permite ver as questões mais profundas e obscuras. E tu sabes paleta de cores salteadas, que onde o homem comum nada percebe e nada entende, o filósofo tudo vê e tudo compreende! Eu represento por isso o saber filosófico, a teoria pura, a ciência abstracta e, neste sentido para o homem, eu simbolizo o bem. Ele não me teme, ele aprecia deveras o meu grande saber e a forma sagaz de o descortinar e descodificar.»

«Deixa-me rir velha carcaça com penas... tu o símbolo da filosofia! Se encaras desse modo a questão, então eu sou para o homem o símbolo da poesia. Até o meu próprio nome mais parece haver nele um trinado sonoro de contagiante alegria. Ele é um raio de sol cantado que hipnotiza a sensibilidade do homem. Eu sou de certo o seu preferido, para habitar este lugar encantado.»

«Mas eu para ele sou a luz intelectual. Não há escuridão para os meus argutos olhos. Mocho! Vejo que já estás desperto pelo falsete trinado deste arco íris voador, diz-lhe! Sendo tu o símbolo do conhecimento, quem escolheria o homem para viver neste santuário? a mim! que represento a sabedoria, ou este peralta pintalgado que representa a estéril beleza!»

«Bem, eu gostaria não me envolver na vossa contenda, mas já que solicitas a minha opinião, e se vós a considerais muito importante para acabar com o vosso desentendimento, então escutem com muita atenção aquilo que vos tenho para dizer: a sabedoria é tão desejável como a beleza é amável. A filosofia ilumina. A poesia encanta. Preferir o saber, excluindo a beleza? Ou, Escravizar-se a beleza e repelir a sabedoria? Eu escolheria ambas, e o Homem inteligente, sensato e esclarecido escolheria para viver neste seu santuário, sobrevivente já de muitos temporais e invernias, tanto a ti minha velha amiga e sensata coruja, como a ti meu jovem e estouvado rouxinol. Em suma, ele escolheria a sabedoria e a beleza, a ciência e a poesia, a luz e a música. Porque a sabedoria e a beleza são inseparáveis, e ele sabe que a sabedoria é formosa e que toda beleza possui o brilho da verdade. Coruja e rouxinol vocês completam-se, acabem com essa inútil briga e com essa estéril discussão, pois ambos simbolizam a essência para uma vida humana em total harmonia. Não queiram com a vossa teimosia, fazer com que esta mente venha a engrossar o caudal do pensamento que se tem caracterizado pela total oposição entre a doutrina e a realidade, a teoria e a prática. Eu tenho assistido na minha já não muito curta existência a oposições que atingem o desvario. Pois enquanto umas só valorizam a experiência, outras perdem-se em elucubrações cerebrinas. Perpetuando essa discussão, vocês só irão fazer com que esta mente venha a engrossar as turbas dos pragmáticos, dos adoradores do concreto que tendem ao puro materialismo. Meus vizinhos desaveços, como seria frio e estéril este campanário sem a coruja e sem o rouxinol! Como seria vazio e superficial este campanário sem o rouxinol e sem a coruja! De que vale a teoria sem a realidade? De que vale a poesia sem a verdade? O ideal é unir-vos pelo que vocês os dois representam, pois o real é a luz intelectual na música da matéria. O real é a harmonia entre o teórico e o prático, a doutrina e a vida, o abstracto e o concreto, a coruja e o rouxinol. Sendo o homem composto de elementos diferentes mas harmónicos entre si, agrada-lhe que viva no seu cérebro tanto o que lhe significa a coruja como o que lhe significa o rouxinol. Por isso sejam aquilo que representais, o homem ama a concórdia dos elementos aparentemente opostos. Nem o puramente abstracto, nem o puramente material satisfazem plenamente o homem. A razão não encontra nas criações poéticas toda a verdade de que necessita, pois a luz da verdade, na poesia, é por demais difusa. A sabedoria do abstracto é o vitral que lhe torna possível ver através da luz ofuscante de Deus, em todas as suas cores, brilhos e virtudes. A luz filtrada por este vitral de encantamento, encarna-se no Verbo de Deus, na Verdade Divina acessível à visão humana.»

«De ti Mocho, já aguardava e esperava as sábias e doutas palavras que acabaste de proferir. Sempre agradáveis ao nosso ouvido. Por mim, reconheço e aceito a parceria da vivência neste espaço do jovial e alegre Rouxinol.»

«Coruja! As científicas palavras emanadas pelo Mocho, são o expoente máximo da inteligência e da musicalidade que o seu sentido traduz. O Mocho ajudou-me a ver numa outra perspectiva, que humildemente te confesso, ainda não me tinha apercebido da sua existência. Reconheço e curvo-me à tua sabedoria e ao teu grande valor. Coruja!»

Finalmente, com a inteligência do Mocho a concórdia, a sintonia e a harmonia passou a reinar naquele campanário do saber e do conhecimento, não havendo até aos nossos dias memória de qualquer discordância dos seus inquilinos em tempos desaveços.

O Relógio

Nove grossas gotas sonoras de um velho relógio de parede, algures no prédio onde habito, ressoaram e fizeram tremer as paredes do meu quarto. Nunca gostei deste som metálico e lúgubre.

Recordo-me, quando ainda em tenra idade, na casa da minha avó materna, existir um destes velhos relógios de parede, muito bonito por sinal, nas suas artísticas e elegantes talhas em mogno, num profundo contraste com todo o rústico mobiliário existente na casa de chão térreo, pobre e de interior sombrio. Os rústicos e parcos móveis desta casa de ternura e de saudade, estavam sempre mergulhados numa perpétua, permanente e teimosa obscuridade tornando-os sempre invisíveis.

Na frente da casa, apenas uma estreita porta de acesso a um comprido e interminável corredor, que comunicava com os quartos perdidos sempre em penumbras e em trevas, paradeiro de medos e assombrações, berço de histórias de arrepiar e de pasmar, que ainda hoje, torna a minha coragem rala e envergonhada, só de recordar as histórias que me embalaram nestas sombrias catacumbas.

Uma estreita janela, pertencente à sala nobre da casa, completava o seu frontispício de paredes sempre limpas e caiadas. Nesta sala, à janela, muito tempo da minha meninice ali passei, sentado num mocho a deliciar-me com os banhos de luz, que trespassavam os vitrais axadrezados da pequena e humilde janela, orlada com cortinas de renda, de uma brancura pura e imaculada, feitas com as mãos da minha avó.

Esse era o meu lugar preferido para deslumbrar com curiosidade a vida que no exterior pachorrentamente corria e desaguava num largo enorme, que na maior parte do ano estava sempre poeirento. Como uma sentinela atenta, vigiava constantemente o movimento que se fazia nesse largo, que dava pelo nome de Rossio, onde uma vez por ano e no primeiro Domingo de Setembro, se galaneava, para receber o grande acontecimento que era a feira anual e nos restantes dias do ano, o assento tanto de arraiais ciganos como de tendeiros, o que o transformava numa testemunha de costumes e de hábitos, para mim, misteriosos e desconhecidos.

Ao fundo do rossio, adivinhava-se através da penumbra das calmarias, as grandes, imponentes e majestosas torres brancas da igreja matriz, sobranceira à estrada que dá para o cemitério. A pouca distância deste templo da cristandade, as silhuetas dos topos dos ciprestes de um azul cinzento, deixava-nos adivinhar e antever que naquele local se recolhia a saudade e o descanso eterno de muitos que deste mundo já não fazem parte.

Nas minhas costas de menino, o dono e o senhor do tempo, cuja presença tiranicamente se fazia lembrar, através de um tic-tac ruidoso, compassado e ressonante, o qual, era interrompido de tempos a tempos, por gotas de som ensurdecedor e estridente. Estas badaladas vigorosas e estremecidas, quase sempre, no meu quarto de sentinela, eram acompanhadas pela minha observação, ao longe, de um cortejo de escuros vultos, séquito de alguém, que nos deixou e partiu para a sua derradeira e última morada.

Vibração mecânica, carcoma da vida, presságio fugaz da nossa existência, que teima em permanecer no meu inconsciente e que ainda hoje me atormenta, e de noite banhado em suores húmidos e frios me desperta. Este simbolismo das sonoras badaladas do relógio de parede, tem justificação e razão de ser no meu “Eu”. Pois, tanto os sons como o nosso coração têm mistérios, que entre si se relacionam muito bem e perfeitamente se ajustam. Talvez seja essa a razão, porque alguns sons agradam muito mais a esta, ou àquela pessoa. A melodia é uma escrita com sons, e esta faz com que os nossos sentimentos vibrem e despertem com a intensidade e a força da nossa sensibilidade, de harmonia com o seu enredo e o drama que elas nos contam. Esta é a razão, porque existem sons que agradam mais a uma determinada pessoa, do que a outra, uma vez que eles a umas podem encantar e derivar sonhos de embalar, enquanto que a outras, podem entediar e enfastiar, tanto pelo desconhecimento da linguagem interpretativa da sua leitura, como até mesmo pela não compreensão da sua história. Outros sons há, que podem despertar recordações, medos e fantasmas do passado, como é o caso das badaladas sonoras e rítmicas de um relógio de parede.

Cada um de nós, segundo as condições especiais do nosso estado mental e psíquico, fica mais ou menos em consonância com a linguagem de determinada harmonia e composição dos sons. Estes contam-nos sentimentos e por isso existe a possibilidade de serem afinados tanto na harmonia, como na sensibilidade que habita o nosso coração. Os sons provocados pelos relógios de parede são sons confidentes e denunciadores dos sentimentos que habitam no meu coração.

Em suma a predilecção de uma determinada melodia em detrimento de outra, permite-nos descobrir as pessoas que se acham irmanadas pelos sentimentos. Há mistérios entre a harmonia que regula o equilíbrio das notas musicais e aquela que preside ao equilíbrio do nosso "eu", que são desvendadas e descodificadas pela escolha das melodias e dos sonoros ruídos, que cada um de nós gostamos mais de ouvir e de apreciar.

A Ambição do Pardal

Num fim de tarde, quando o grande disco solar pachorrentamente se escondia para lá da linha do horizonte, dando lugar tanto a um céu aureolado duma luminosidade e florescência alaranjada, como a um estriado algodão purpura, que dava ao ocaso um crepúsculo de rara beleza, e ao bosque a escuridão pardacenta que abriga os segredos e os mistérios de quem lá o habita. Empoleirado num ramo de uma das mais altas anciãs daquele bosque, habitat de muita e fervilhante vida, um pardal meio oculto pela folhagem outonal, furtivamente espiava sem cessar o voo da grande águia real, que habitava no branco penhasco no cimo da montanha que era visível daquele denso e arborizado bosque.

Nas alturas, todos os dias e há mesma hora, a grande e majestosa ave pairava sobre aquela grande mancha arborizada, quase que parada, exibindo desse modo, tanto a sua silhueta em toda a sua magnificência e extensão, como a performance, a elegância, e a exuberância do seu voo.

A sua escura e graciosa silhueta, contrastava com aquele luminoso alaranjado céu, o que fazia com que os olhos do seu pequeno fiel e dedicado fã se arregalassem de sonho, de grandeza e de fantasia. Para ele, aquele voo da rainha dos ares era de facto soberbo, magnífico e perfeito. Qualquer coisa de sublime e de majestoso muito para além do que poderia ser imaginável, pelo que o pequeno pardal se enchia de espanto, de admiração e de contentamento. Nunca por essa razão se cansava de admirar as proezas daquele magnífico voo planado. Como ele gostaria de voar com aquela exuberância e com aquela perfeição.

Ele daria tudo para poder voar com aquela magnificência e com aquele esplendor, mas ele não sabia como o fazer, pois tudo já tentara sem qualquer triunfo ou qualquer sucesso. Mas isso, não o impedia de sonhar acordado o seu desejo de um dia vir a ser forte para poder voar tão alto e tão distante como a aquela rainha dos ares. Mas, por mais que o tentasse, nunca conseguia voar assim tão alto e tão longe como ela o fazia, tanto por medo, como por cobardia e desconhecimento.

Todavia, todos os dias àquela mesma hora, o pardal não se cansava, dia após dia de a seguir por entre os ramos entrelaçados daquele imenso arvoredo. Sempre escondido e oculto com as folhas tingidas com a cor da morte, por forma a não ser nunca por ela denotado e visto. De ramo em ramo, e sempre camuflado com aquela folhagem que o avisa da proximidade dos gélidos e agrestes dias de inverno, ele procurava sempre o melhor ângulo de visão, para que desse modo, melhor pudesse vislumbrar tamanha graciosidade, beleza e força.
Num certo entardecer, estava o pardal a voar em curtos voos por entre os ramos do denso e escuro bosque, clandestinamente espiando com o seu característico fervor e denotada atenção o seu ídolo de sempre, quando de repente uma folhagem mais densa e luxuriante, salpicada aqui e ali por tons de um forte amarelo, escuros ocres e velhos vermelhos, o impediu por momentos de seguir o voo da águia. Quando saiu dessa densa mancha de vegetação, já não viu a razão de toda a sua veneração e admiração. Olhou para todas as direcções aflito, mas, a grande águia tinha desaparecido da sua visão. Voou desesperado acima das copas das árvores a fim da procurar e de reencontrar a sua grande rainha dos ares, mas, o fracasso era ameaçador.

A silhueta da águia havia desaparecido daqueles brilhantes céus laranjas. Ele por mais que a procurasse, não a conseguia encontrar em nenhum lado. No entanto, sem baixar as suas pequenas asas, e com a sua habitual teimosia, todos os recantos vasculhou com o seu atento e perscrutador olhar. Como não a encontrava, chegou mesmo a perguntar a si próprio: a onde é que ela se teria metido? Voou rápido por cima das copas, um pouco desajeitadamente e atabalhoadamente na busca e na perseguição do seu ídolo que lhe havia de repente desaparecido e escapado.

Quando este pequeno pássaro desnorteado e desesperado por tamanha perda, mudou bruscamente de rumo e de direcção, para assim melhor escrutinar o horizonte, a fim de encontrar a grande águia, este teve o maior susto da sua vida, pois sem o esperar e repentinamente, na sua frente, com toda a sua grandiosidade e fogosidade, ele se deparou com a gigantesca e majestosa águia real. Tentou a todo o custo conter e até mesmo inverter a trajectória do seu voo, mas pelo ímpeto e o impulso que nele lhe tinha incutido, foi-lhe completamente impossível, tanto de corrigir o seu rumo, como o de diminuir a energia que lhe havia conferido, pelo que este pequeno espião voador, irremediavelmente acabou por chocar com alguma violência, contra o grande peito de sua majestade, a grande águia real.

Com o forte e brutal embate, o pequeno pássaro caiu desnorteado no chão, que por sorte lhe amorteceu a queda, graças ao tapete de apodrecidos sedimentos de muitas eras, que há séculos o cobria. O pobre pássaro perdeu por alguns momentos os seus sentidos e o norte do que lhe havia acontecido. Quando voltou a si, ainda muito atordoado, abriu os seus pequenos olhos, para de imediato os esbugalhar com o espanto e o terror da visão fantasmagórica que aquela gigantesca e imensa ave lhe havia causado. Com o seu agudo olhar inquisidor, de pé e à sua frente, ela o observava fixamente, com grande acuidade e muita atenção.

Aquele vivo, aterrador e forte olhar, fez com que este sentisse a sua coragem rala e quase desaparecida do seu ser, ao mesmo tempo, que um enorme calafrio lhe percorreu todo o seu pequeno corpo. As suas asas se arrepiaram, ficando por momentos, hirtas e petrificadas. Olhou assustado e receoso aquela gigantesca extremidade córnea de um forte amarelo, que formava o curvilíneo bico daquela águia real e fechou os olhos numa murmurada prece, esperando o pior. Por sua vez a águia, continuou inerte e estática, contemplando apenas na sua mumificação e quietude, o deplorável estado daquele tiritante e tremente despenado pardalito.
Na sua habitual e característica expressão séria e aguda, a águia perguntou-lhe:
«Porque me persegues e me vigias, pardal?»
Muito a medo e timidamente o pardal titubeou algumas tremidas palavras soltas:
«Gostava de ser uma águia como tu... bela... inteligente e ... forte!»
Como a águia se mantinha em silêncio, este encheu-se com alguma réstia de coragem e com alguma determinação continuou a responder àquela gigante e senhora dos ares:
«Mas... o meu voo é muito fraco e baixo! As minhas asas são muito pequenas e curtas! E a minha vista não é muito profunda. Vivo com muita tristeza por não poder conseguir ultrapassar as minhas fronteiras, nem tão pouco os meus limites. Por isso, te sigo com o meu olhar, para que desse modo, melhor possa compreender como o fazes, como também para melhor poder sonhar com o dia em que serei como tu, uma águia. Quando esse dia chegar, voarei muito alto, e lá no cimo, pairarei com as minhas asas bem abertas ao sabor das correntes de ar. Assim estás a ver...»
e estica as suas pequenas e mal tratadas asas, para melhor exemplificar o voo que iria um dia fazer nas alturas daqueles céus laranjas.
«voarei nas grandes alturas enormes distâncias, que nos dão o poder de sermos completamente soltos e livres. No velho bosque, todos me olharão com respeito. Todos me farão vénias à minha passagem, e em todos os meus conterrâneos eu serei sempre o seu preferido tema de conversa...»
A águia surpresa por tanta e desmedida ambição, que não hesitou em interromper aquele sonho falado, perguntando quase de rompão ao pequenote, como ele se sentiria se chegasse à conclusão, que as suas pequenas asas o impediam de desfrutar e de usufruir de tudo o que acabava de descrever e sonhar. Ao que o pardalito sem aparente hesitação lhe respondeu com alguma euforia mal contida, que ele era depositário de muita fé e de muita crença, e que algo no seu interior mais forte do que ele, lhe havia confidenciado que um dia, nem que fosse em uma outra vida, ele seria uma ágil e forte águia real. Mas que de momento, as suas asas o impediam de concretizar aquele sonho acalentado já há muito. Lançou de seguida ao vento, uma metralha de descontentamentos, maldições e infortúnios por ter nascido com aquele franzino e débil corpo. Mal disse até, o dia em que nasceu, e chegou mesmo a desejar juntar-se rapidamente à eterna luz do Oriente, para que renascesse sem demora com o corpo de uma forte e ágil águia real. De súbito caiu em si, e respondeu com algum pesar e uma sentida tristeza: que sentiria muita infelicidade e muita amargura se tal viesse a acontecer. Naquele momento, já uma profunda tristeza lhe invadia o seu pequeno coração por ser desajeitado, ter medo das alturas e não conseguir voar muito alto.

Disse ele ainda na forma de justificação e de confissão, que tinha uma grande vontade de ultrapassar todas as vicissitudes e todas as contrariedades que impedissem a realização do seu sonho. Contudo, não se cansava de maldizer o dia em que tinha visto a luz pela primeira vez. Chegou mesmo a dizer que não valeria a pena viver se nunca conseguisse realizar o seu sonho de voar acima das nuvens, sentir o frio das alturas e a sua vista se perder no infinito do horizonte. Esse sim, seria o delicioso sentimento que lhe transmitiria a dignidade e o sentido da liberdade...

O pardal suspirou com profundidade, ao mesmo tempo que olhando com tristeza para o chão... uma lágrima brotou dos seus olhos a confirmar a tristeza que habitava em todo o seu ser e disse com voz arrastada:

«Todos os dias, faça chuva ou sol, frio ou calor, tanto ao amanhecer como ao entardecer, eu estou de sentinela na mais alta árvore deste bosque para, tanto te ver voar como caçar. Pois, eu quero contigo aprender todos os segredos da arte de voar e de caçar. Sem dúvida, tu és para mim única, tanto pela tua beleza, como pela tua inteligência e pela tua força».

A águia, acusando um pouco de vaidade questiona o pardal com alguma curiosidade:

« Se passas todo o dia a observar-me. Então quando é que tu voas? Pardal!»

O Pardal em modos de confissão e quase num ténue sussurro confidenciou:
«A grande verdade é que eu gostaria de voar como tu voas... Mas as tuas alturas são demasiadas para mim. Eu tenho muito medo, e creio não ter as necessárias forças para suportar os fortes ventos que se fazem lá em cima, e tanto mais, que não sei voar com a graça e com a agilidade com que tu harmoniosamente lá no alto planas...»

A águia ficou muito comovida e com muita pena daquele infeliz pardalito que talvez por isso, esta tivesse sentido uma forte necessidade em o consolar dizendo-lhe com esse fim:

«bem sabes que a natureza de cada um de nós é muito diferente...»
«Bem sei! Bem sei! Maldito o dia em que nasci.»

E com esta curta exclamação, o pardal voltou ao seu costumeiro inconformismo de sempre, pelo que a águia sentiu a necessidade ainda de lhe transmitir algumas palavras de apoio, de conforto e de alguma esperança. Ao mesmo tempo, que no seu interior algo de muito grande ia crescendo. A águia apesar da sua lucidez e sagacidade, foi incapaz de contrariar tal sentimento e por isso, com uma voz modelada pelo sentimento lhe disse:

«Não estou com isto a querer dizer, que nunca poderás voar como uma águia. Antes pelo contrário. Se fores firme e teimoso no teu propósito, e deixares que a águia que vive no teu espírito se solte e se liberte, então ela dar-te-á a possibilidade de vires a voar tão alto como eu. Acredita no que te digo! O teu espírito poderá ser o de uma águia.»

Apesar das harmoniosas e confortáveis palavras da águia, o pardal continuava a ter no seu espírito o desânimo e a descrença como companheiros, pelo que a águia lhe disse ainda antes de se preparar para levantar voo.

«apenas mais um pequeno conselho, meu amigo: tu nunca poderás voar como uma águia, se não treinares intensamente e incansavelmente todos os dias. O treino é o que te dará o conhecimento, o fortalecimento e a compreensão para que possas na realidade concretizar os teus sonhos. Se não pões em prática a tua vontade, o teu sonho nunca passará dum sonho. Esta é a nua realidade para aqueles que não temem, tanto quebrar os limites, como as crenças, porque conhecem o que na realidade deve ser conhecido e feito. Um pardal, poderá sempre transformar-se numa águia, se esta for sua vontade. Confia em ti e voa o mais alto que poderes. Entrega as tuas asas aos ventos norte, e aprende com eles o necessário equilíbrio para poderes planar longe. Tudo é possível para aqueles que compreendem que são seres livres e inteligentes, basta apenas em acreditarem nas suas capacidades e potencialidades, basta apenas confiarem nas suas potencialidades em aprenderem a serem felizes!».

O tempo passou e o inverno chegou. O pardal mal deu conta de quanto tempo havia passado desde o dia em que a águia lhe deu os nobres e argutos conselhos. Desde esse momento, o tempo não lhe chegava para treinar a arte e a técnica tanto do voo como o da caça. Ainda não estava exímio nessas artes mas tinha evoluído muito e era mais seguro de si.

No velho bosque, os gigantes carvalhos e os grandes castanheiros despiram-se para receber as grandes chuvas e as densas neves, que os transformaram em frios e húmidos troncos brancos, e às restantes árvores em fantasmagóricos espectros, donde sobressaiam esqueléticos e retorcidos dedos apontados tanto para a luminosidade do alto, como para o esbranquiçado pico da montanha, como que a assinalarem naquele gesto, que algo de grande e de divino ali naquele momento se passava.

A silhueta da águia real, sempre pontual nos alaranjados entardeceres, já alguns dias tinha deixado de aparecer naqueles brumosos e esbranquiçados céus, pelo que o pardal utilizava todo o seu tempo livre num intenso e dedicado treino, tanto de voo como de caça.

O uivo e o silvar do vento, sempre brutal e agressivo para o velho bosque, também havia já algum tempo cessado e desaparecido. O único som distinto e cristalino naquele bosque de fantasmas, era o chilrear das perdizes, das toutinegras, dos tentilhões, e de muitas outras aves, que cantavam ao desafio a sua hilariante alegria, por a neve ter cessado de cair farta e abundante.

O manifestante e contangiante chilreio de contentamento e de estonteante alegria das aves habitantes daquele bosque entapetado de branco, apesar de forte e de intenso, dava-nos a sensação que este ainda ganhava mais força e mais vida, à medida que apurávamos o nosso ouvido e a nossa atenção se esmerava naquelas maravilhosas melodias. Os sons que invadiam aquele bosque coberto por um farto manto branco, eram na generalidade cristalinos, límpidos e claros, embora, alguns houvesse, indecifráveis e até imprecisos. No entanto, um havia, que se destacava na soberania de todos eles. Era um som forte e matraqueado, que ressoava por entre os velhos e despidos troncos brancos, numa cadenciada, repetida e chorada melodia.

Um "kau, kau, kau " pungente e lúgubre ecoava por todo aquele bosque de fantasmas, denunciando a todos os que lá viviam, o grande drama que a águia real vivia. Pois esta com o passar dos anos, tinha ficado com o seu adunco bico enfraquecido e gasto, as suas garras tinham crescido desmesuradamente, tortas e enfraquecidas, e as suas penas se tornaram velhas e pesadas. Estas excrescências e contrariedades, eram os sinais inequívocos da sua já muita idade, pois estes dificultavam-lhe gravemente, tanto a performance do seu voo, como a sua eficácia e eficiência na caça. Em face destas vicissitudes da vida e partidas do tempo, a quem já não é muito novo, a sua sobrevivência estava por isso largamente ameaçava e seriamente condenada ao malogro, se algo ela urgentemente não fizesse para contrariar os seus visíveis sinais de velhice e de decadência.

Aquela majestosa águia real já tinha defrontado e superado quarenta invernias e fazia preces para poder vir a defrontar outras tantas. Mas, de momento, ela teria de tomar a grande decisão da sua vida. Isto é, ela teria de optar por viver ou por morrer.

O seu forte espírito de sobrevivência falou mais alto e mais forte, por isso, no alto do seu penhasco ela tomou a decisão de iniciar o ritual do renascimento, o qual, iria durar muitos e longos dias, aproximadamente uns cento e cinquenta. Derivado dessa corajosa e pronta decisão, os habitantes daquele bosque puderam ouvir o cadenciado e oco batuque, que dolentemente ressoava por todos os recantos do bosque. Este, era o som provocado pelo seu velho bico, quando esta sucessivamente e com fúria o batia nas pedras, para desse modo o arrancar e o soltar. Logo que esta operação esteja concretizada e que um outro novo e forte bico lhe nasça, ela iniciará a operação de arrancar as garras, uma por uma. Por sua vez, quando lhe nascerem as novas e poderosas garras afiadas, ela com estas e juntamente com o seu poderoso bico, apesar do intenso frio que na alta montanha se iria fazer, ela iria arrancar as velhas e sujas penas do seu corpo, uma a uma, a fim de que outras novas lhe venham a nascer. Com esta dolorosa e sofrida metamorfose, ela ficará restaurada, rejuvenescida e renascida, pronta para enfrentar todas as vicissitudes e contrariedades da sua nova vida.

Muitos dias depois, precisamente quando a neve e a chuva fizeram uma trégua e o nevoeiro transformou a visão do bosque em esparsas e raras imagens visíveis, redesenhando dessa forma a paisagem em cada momento, uma vez que apenas se distinguiam aqui e ali uma mancha um pouco mais escura, à qual por intuição e indução atribuíamos ser a silhueta de uma árvore mais copada ou mais robusta, ouviu-se proveniente das alturas um estridente, forte e agudo grito, que anunciou a boa nova aos habitantes daquele ainda gelado bosque, e em particular ao pardal, que apesar da esbranquiçada bruma os impedir de admirar a grande e exuberante silhueta da bela e rejuvenescida águia real, que lá no alto, voltava a fazer piruetas e arrojadas acrobacias aéreas, ele a imaginava esbelta e majestosa no seu pungente voo.

Quando uma clareira se fez no denso nevoeiro, e o pardal pode ver para seu gáudio, a sua velha a amiga em toda a sua magnificência e majestade ele ficou enternecido e deleitado pelo o que viu. Talvez fosse mera impressão sua, mas ele achou que a metamorfose que nela havia sido operada, lhe tinha conferido maior agilidade e até parecia que esta tinha um voo mais preciso e mais elegante do que nunca.

Naquele voo livre e solto, a velha senhora dos ares anunciava desse modo a todos, a sua renovada esperança de poder vir a viver mais quarenta invernos sobre aqueles céus esbranquiçados e de entardeceres alaranjados.

Que bom que não seria, se todos os seres tivessem a possibilidade de conquistar pelos seus próprios meios, mesmo que com grandes sacrifícios e dificuldades, melhores anos de vida, e até mesmo, poderem conquistar a sua juventude já há muito tempo saudosa e perdida. Como seria magnífico, perfeito e belo poderem fazer o mesmo que águia real o fez com coragem e determinação, para que desse modo pudessem vir a viver tanto melhores dias como a terem melhor qualidade de vida.

O seu dedicado e fiel fã, tal como os outros, através da clareira que se fez no denso nevoeiro que havia invadido o bosque, também ele pode ver com deslumbramento e contentamento nos brumosos céus, a sua querida escura silhueta de liberdade e de tenacidade. Mas desta vez, ele já a não seguiu furtivamente de ramo em ramo como até aí o havia feito. Não! Desta vez sem resto de medo, com determinação e com invulgar coragem, voou acima dos espigados e nus ramos das árvores do bosque, e lá no alto, com as asas bem abertas, pairou ao sabor dos ainda gélidos e agrestes ventos. Nesse pioneiro voo, atingiu alturas que para ele, até ali, eram inimagináveis e inconcebidas. Maravilhado e estarrecido com o que via. Assim, pela primeira vez ele pode reparar e apreciar, como ali do alto a visão da paisagem branca era desoladora e inóspita, como também pode reparar como ali do alto tudo era tão pequeno, tudo era tão efémero e sem importância de maior.

A partir desse dia o pardal passou a voar cada vez mais alto e mais distante, alargando desmesuradamente desse modo o seu conhecimento e a opinião que tinha das coisas da vida. Embora não fosse comparável com as alturas e as distâncias que a sua amiga águia real praticava, eram no entanto para ele alturas e distâncias surpreendentes e colossais. Sempre solitário nas suas viagens de busca e de prospecção, não se cansava no entanto de questionar tudo o que era para ele novo e desconhecido.

Naquele bosque, havia um velho e robusto carvalho com uma aparência gigantesca, rude e disforme, como se este na sua vida tivesse despendido muita força e muita energia. Cada tempestade para um carvalho é mais um desafio a ser vencido e não uma verdadeira ameaça, uma vez, que numa grande tempestade muitas árvores são arrancadas pela raiz, mas o carvalho permanece firme e sólido no local onde nasceu e pela primeira vez viu a luz do dia. Quantos mais temporais e tempestades o carvalho venha a enfrentar, mais forte e maior este fica. E com estas intempéries as suas raízes se aprofundam e afundam ainda mais nas entranhas da terra e o seu tronco se alarga e mais forte e robusto fica, sendo por isso, completamente impossível uma qualquer tempestade ou temporal o arrancar do solo ou o derrubar. Pois nesse forte e grande carvalho, certo dia, quando o sol se despedia tanto do bosque como da montanha e a lua lhes dava as suas boas vindas, uma grande assembleia de pardais nele se reuniu, afim de deliberarem a permanência no bando, ou não, do pardal de costumes heréticos e transviados.

O quoro daquela assembleia era composto por uma multidão, pois todos os imensos troncos e ramos daquele velho e forte carvalho estavam ocupados por pardais, que inquietos e desassossegados, chilreavam aos atropelos e ao desafio entre si. Quando um pardal já ancião tomou o lugar no centro daquela gigantesca assembleia, todos se calaram e emudeceram em sinal de profundo e sentido respeito. Num solene e majestoso gesto, ele deu de imediato inicio àquela assembleia, e por isso, deu de imediato a palavra ao orador, para que este anunciasse analiticamente àquela assembleia, as razões que levaram a esta a se constituir e a se reunir naquele grande e frondoso velho carvalho.

O orador, num local bem visível e acima dos demais, de papo cheio, de harmonia com um ritual muito estudado, iniciou um discurso com esmerada eloquência e encenação teatral, que o pardal transviado violara todas as normas e regras de conduta de um pardal daquele bando. Deu como provas inequívocas da sua acusação, o facto de o pardal já não picar o solo com o seu bico na busca de sementes e outros restos do bosque, mas sim, que este se dedicava à caça numa técnica que se assemelhava em muito, às técnicas utilizadas pelos seus predadores.

Disse em tons estudadamente sombrios e sérios, que o pardal transviado tinha deixado de picar o solo na busca dos seus alimentos, para preferir caçar, tal como os seu inimigos o faziam, com uma técnica que consistia em depois de ter avistado a sua presa, efectuava um voo picado e desse modo, apanhava nas suas unhas em forma de garras, grandes insectos, gordas lagartas, fartas lesmas, robustos caracóis e até longas minhocas. Depois destas suculentas presas ficarem bem agarradas nas suas patas, ele as levava para um lugar seguro e ai gulosamente as devorava. Com este detalhado discurso, os mais novos começaram a sentir crescer água nos seus bicos, e por momentos pensaram que o pardal transviado talvez até fosse um exemplo a seguir, mas assim que olharam a carranca do pardal já de muita idade, ficaram assustados, e a medo reprimiram os seus repticianos apetites, e puseram a mascara conveniente ao solene momento.

E o mais grave, dizia eloquentemente e solenemente o orador, era que ele voava de forma absolutamente estranha e bizarra, num sinal claro de ter negado e desprezado todos os costumes dos seus iguais. Disse ainda o orador, que se sabia pelo departamento de inteligência dos pardais, que este aprofundava e estudava conhecimentos proibidos e pelo código de conduta do bando altamente condenatórios, pelo que, aquela assembleia deveria de exemplarmente, com firmeza e com dureza punir o infractor.

O ancião, com a calma e a paciência dos maiores e a gravidade da sua autoridade, deu de seguida a palavra às testemunhas abonatórias do pardal transviado. Só uma, timidamente e muito a medo se apresentou e lhe pediu com cortesia sussurrada a palavra. Todos chilrearam frases azedas de apupo e de descontentamento, sem que fossem mandados calar pelo pardal de muita idade. Muito a medo, a testemunha abonatória que aparentemente, quase parecia ser a alma gémea do pardal transviado. Iniciou o seu testemunho com titubeadas e soltas palavras. A assembleia continuava turbulenta e o pardal ancião nada fez para aquietar aquela barulhenta turba. Assim, no meio deste burburinho e desassossego, a testemunha confessou ser seu irmão e testemunhou de entre muitas coisas que sabia do passado deste, que o seu pai queria fazer dele a reprodução de si próprio. O mesmo queria o seu tio. A sua mãe pretendia fazer dele a imagem do seu ilustre e saudoso pai. A sua irmã considerava o seu marido como o exemplo perfeito, que o seu irmão deveria seguir. Como disse ainda também, que até ele próprio, por sua vez, queria que ele fosse como ele, um excelente tenor. E os seus professores também queriam que ele fosse a sua imagem... O de saltitar queria que ele saltitasse como um atleta; o professor de canto queria que ele fosse virtuoso na ciência dos sons; o professor de costumes queria que ele fosse exemplar e a referência dos seus... Cada um que com ele conviveu, queria que ele fosse senão o reflexo da sua própria imagem. E por essa razão, ele tinha seguido aquele confuso e solitário caminho. Segundo a sua opinião, com tanta exigência de quem o rodeava, este havia perdido a sua sanidade e tinha enlouquecido. E confidenciou de seguida quase num murmúrio sussurrado que ninguém o pode ouvir, que pelo menos assim, ele poderia ser ele mesmo.

De todo o discurso desta testemunha abonatória, a assembleia dele só reteve a confirmação, de que o perigoso pardal transviado, havia enlouquecido e perdido a sua sanidade mental. O veredicto final estava já inexoravelmente traçado com o resumo deste último testemunho. O pardal transviado foi considerado por aquela magna assembleia como um louco perigoso e por isso, foi condenado à expulsão do bando, como todo aquele, que se lhe dirigisse ou mantivesse relações amistosas para com este.

Quando a comissão constituída para anunciar ao pardal transviado a decisão da magna assembleia dos pardais, cumpriu a sua difícil e espinhosa missão, o pardal transviado ficou por momentos profundamente amargurado e muito triste com os seus. Com um suspiro pensou, que deveria tirar proveito das situações contrárias à sua vida, e tal como o carvalho que serviu para albergar a assembleia que o havia condenado, este deveria com esta vicissitude ficar mais forte e mais confiante em si próprio. Um pouco marcado, é certo, e por vezes até com a aparência desiludida e abatida, mas o seu interior seria sempre forte e com as raízes bem firmes e profundas na terra.

A vicissitude com que o pardal transviado se debateu, foi assim por este encarada com o exemplo do velho carvalho... e por isso, como um desabafo, num piar baixo ele disse: «É apenas só mais uma tempestade que me tornará mais forte e mais seguro de mim mesmo». Assim, este pensou de seguida, que o triste acontecimento não era assim tão grave, pois ele próprio já não se sentia um pardal, por isso, só tinha de que agradecer a estes a sua decisão, pois ajudaram-no a cortar os elos e as amarras que ainda o prendiam ao seu passado. Ele já não era um pardal, ele era uma águia, sentia a vida como uma águia e as águias vivem sós. Assim, como uma águia ele raciocinou e disse para si num baixo piar: « apesar de pairarem nuvens ameaçadoras nos céus, eu não devo nunca, dobrar as minhas asas, como não devo também fugir para o meu abrigo e nele me esconder. Mas sim, tal como a minha amiga águia real. Eu devo abrir largamente as minhas asas e planar para bem alto. Acima dos problemas que a vida me traz. Pois as águias quanto mais alto voam, mais tranquilos e mais brilhantes se tornam os céus». E assim no alto das copas, o pardal voou, voou e quando olhou para trás de si verificou, que a tempestade havia passado, uma vez que no seu espírito vivia agora a sensação de liberdade e nele também habitava a plena confiança em si próprio. E com este voo livre e solto ele encontrou novas forças e nova coragem para enfrentar o desconhecido e o misterioso que a vida nos reserva.

Numa certa escura e nublosa noite, em que o silêncio era do mais profundo, embora a noite já tivesse caído há muito, o sono teimava em não visitar o pardal, que no interior de um buraco que se situava num dos mais altos galhos do velho carvalho, e que nessas alturas lhe dava o abrigo, o conforto e o necessário aconchego à sua solidão, ele nesse isolado refúgio não parava de suspirar, transmitindo assim, tanto a sua grande tristeza e melancolia, como a sua enorme amargura e agastamento, que lhe invadia tanto o espírito como o coração.

A sua expulsão do bando, ainda era uma ferida que lhe ardia e lhe dilacerava vorazmente o seu soturno e mórbido espírito, razão porque negros pensamentos se espraiavam no seu espírito e as lúcidas ideias nele estavam ausentes ou fugidias. Em face deste desconsolo e sentimento de abandono, ele sentia uma grande necessidade de meditar e de reflectir sobre a sua nova condição de banido e de proscrito do bando que o viu nascer, razão porque ele no fundo até se sentia muito bem no meio daquele manto escuro, que para além de transformar a sua toca numa câmara de reflexão, conferia-lhe ainda, também, tanto o indispensável silêncio, como o hipnótico mistério, para que ele pudesse soltar as amarras do conhecimento e desse largas à sua fértil e criativa imaginação, sobre qual a estratégia de conduta que ele deveria daí em diante seguir.

A noite passou silenciosa e pachorrenta pelo velho bosque, até que os primeiros esteriados raios da manhã, alaranjaram os cumes da montanha e deram a tonalidade avermelhada às copas das mais altas árvores do bosque. Com o nascimento dessa romântica e sonhadora claridade, os costumeiros madrugadores cantaram ao desafio as graças por verem mais um dia nascer. Apesar do chilrear ser crescente e forte, o pardal mal deu conta do despertar da vida daquele pequeno efervescente microcosmos. Na sua escura câmara de reflexão, ele continuava em total êxtase e numa profunda meditação. Nesse estado febril, ele congeminava sucessivos cenários de atitudes e de conduta, que este deveria seguir em face da injusta e cruel expulsão do bando de que havia sido alvo.

Depois de uma noite de sonhos acordados e de imagens projectadas no vácuo, o pardal retirou dessa profunda meditação e reflexão duas conclusões: ou mudava radicalmente as aves que compunham o seu círculo social; ou mudaria ele a sua maneira e a forma de se relacionar com os seus iguais. A voz da sua consciência, depois de uma noite sofrida e acordada, era o reflexo da revolta e da raiva mal contida, tanto contra aquele ancião de maneiras e gestos autoritários e autocráticos, como contra aquele orador de teatrais e engenhosas falas mansas.

A sua conduta no futuro, só poderia ser a conduta que o conduzisse ao mais profundo desprezo para com os seus iguais, uma vez, que nunca se pode esperar laranjas de um pessegueiro, a menos que se queira ser masoquista e ter-se o sórdido gosto em sofrer. Mas, o pardal estava inabalável e firme na sua convicção de ultrapassar os limites que a natureza e o costume lhe impuseram. Ele achava até muito injusto, tanto os comentários e falatórios de que ele havia sido alvo, bem como cruel, a pena que lhe havia sido sancionada pela assembleia dos pardais. Em vez de o agraciarem, de o aplaudirem e até de o estimularem à vitória tanto sobre os desafios, como sobre os escolhos que a vida nos coloca passo a passo, antes pelo contrário, condenaram-no, tanto pela sua ousadia, como pela sua tenacidade em defrontar o desconhecido e o desejo de desvendar os mistérios que ainda se escondem do nosso conhecimento.

As negras nuvens da revolta e da rebelião que toldavam o espírito do pardal, faziam com que este achasse que os pêssegos até poderiam ser um dos frutos mais deliciosos e saborosos daquele bosque, mas que de modo algum substituíam o forte desejo que por vezes ele tinha de suculentas, sumarentas e gordas laranjas, tanto mais, que ele até sabia onde naquele vespeiro de vida havia laranjeiras carregadas com tais saborosos frutos. Com esta simples lógica, gradualmente, o orgulho e a altivez voltaram a inchar o seu espirito renovando-lhe a sua autoconfiança e o seu egocentrismo. Pois, ele estava inabalavelmente convicto, que o essencial e o mais importante era que ele sabia da existência de outras aves que lhe poderiam proporcionar tanto a indispensável companhia, como o conhecimento e os estímulos de que ele tanto necessitava.

Na verdade, por intuição, o pardal até sabia que esperar estímulos e atenção das outras aves que faziam parte do seu antigo bando, depois tanto do que por elas havia sido dito, como por elas havia sido praticado, era mera utopia e vontade de querer sofrer. Por isso, esperar que o bando o aceitasse de novo, não seria de forma alguma uma decisão ponderada e razoável, uma vez, que o haviam considerado como um perigoso louco. Logo, por esse facto, o bando nada lhe tinha para oferecer. Em consequência deste rancoroso pensamento, ele com um alto piar concluiu, que se os pardais o tivessem querido aceitar como ele na realidade era, ele teria ficado encantado e teria gostado muito deles. Mas, pelo contrário, eles tanto o quiseram desprezar, como quiseram desvalorizar as suas inéditas qualidades. Deste modo, o problema só poderia ser apenas deles, uma vez que ele há muito, já havia aprendido que somente ele próprio poderia se desvalorizar e se desqualificar, se essa fosse a sua vontade e se esse fosse o seu real desejo.

Apesar do sonho ser muitas das vezes uma armadilha da vida real. O pardal apesar de uma noite acordada estava lúcido nas suas idéias e por isso com frieza pensou, que se o bando havia deliberado aquela injusta sentença a responsabilidade só poderia ser deles, uma vez, que somente os lobos caem nas armadilhas para os lobos. Ele jamais pensou em permitir, que o espinho da humilhação ou da desonra que cruelmente lhe cravaram o afectasse com profundidade. Esse espinho, no seu entender, apenas lhe causou uma picada acompanhada de uma passageira aguda dor. Ele era uma nobre e majestosa águia porque no seu interior vive o espírito de uma majestosa e nobre águia e não a demência e a loucura que os pardais anciãos o acusam e o querem fazer crer.

O pardal em termos de conclusão da sua reflexão e da sua prolongada meditação, num sonoro piar ao vento concluiu: como poderia a decisão do bando o afectar se ele nunca poderia ser melhor só pelo facto de ser elogiado, como nunca poderia ficar pior pelo facto de o criticarem ou de o combaterem. Logo, o sucedido seria apenas um triste percalço na sua vida e decidiu que o mais importante era permanecer, discreto continuando a ser ele mesmo, na constante e permanente procura do seu aprimoramento íntimo e na busca do conhecimento mágico e misterioso que tornasse a vida mais segura e mais bela.

O Pardal ao entardecer desse mesmo dia, voou muito para além dos limites do velho bosque, até um já não muito novo campanário, de linhas esguias e de cúpula piramidal, que ele havia descoberto em uma das suas últimas expedições de prospecção e de descobrimento. Nessa esguia e alta torre, vivia uma velha e ao que dizem sábia coruja, que tinha o dom de ver no escuro as questões mais profundas e mais obscuras da vida. Consta-se, que onde as aves comuns nada percebiam e nada entendiam da vida, esta filósofa coruja tudo via e tudo compreendia. Ela era o expoente máximo do saber filosófico, da pura teoria, da abstracta ciência, e neste sentido ela era uma autoridade incontestável na matéria em questão.

O pardal sem rodeios, contou à douta coruja todos os acontecimentos que ocorreram no velho bosque e em que ele fora um dos principais protagonistas de cena. A coruja com o seu grande olhar sempre muito astuto e atento despia o espírito do pardal ao mesmo tempo que com um bisturi retalhava o problema que tanto o afligia e que tanto o preocupava. A noite já era adulta quando o pardal terminou o seu relato dos acontecimentos por ele vividos. Por fim, ela laconicamente e pausadamente respondeu, que as grandes transformações somente aconteciam quando os espíritos passavam pela prova do fogo e todos os espíritos que não passassem por esta prova ficariam a vida inteira sempre iguais e sempre imutáveis rudes como pedras informes. Pois as aves que o haviam condenado eram duma dureza assombrosa porque nunca haviam conhecido a prova do fogo. Razão porque elas não tinham percebido nem tão pouco compreendido o alcance da busca e da procura dos novos conhecimentos que o pardal havia iniciado. Essas aves tinham o seu próprio jeito de ser e supunham até que esse jeito de ser era o melhor e o único.

Assim a coruja fez saber ao pardal que este havia conhecido o tenebroso e temível fogo que tudo consome e que tudo purifica. O fogo é a prova máxima de que qualquer espírito pode a qualquer momento estar sujeito, pelos acasos do destino, pois as leis da vida podem em qualquer momento nos lançar esta prova numa forma de que nunca poderíamos suspeitar ou imaginar como um desafio para nos testar tanto a nossa determinação e coragem como para temperar o nosso carácter e rejuvenescer a tenacidade e perseverança. O fogo é dor e é sofrimento e assume duas formas: o fogo pode ser um fogo exterior o qual pode ser a perda dum amor, a perda de um ente muito querido, ficar doente, perder a actividade e ocupação habitual, ou ficar pobre e miserável; ou pode ser o fogo interior: o qual se traduz pelo pânico, pelo medo, pela ansiedade, pela depressão ou até mesmo por sofrimentos cujas causas ignoramos.

São aquelas pessoas que, por mais que o fogo esquente se recusam a mudar. Elas acham que não pode existir coisa mais maravilhosa do que o jeito delas serem. A sua presunção e o medo são a dura casca que não estoura. O destino delas é triste. Ficarão duras a vida inteira.

A Vida Imaginária

Nos cuidados intensivos de um hospital da cidade de Lisboa, dois homens jaziam imóveis em duas articuladas camas de enfermaria, com o seu esquelético corpo ceráceo, amarelecido e abandonado. Rodeavam estes doentes, complexos e sofisticados equipamentos de muitas luzes e de garridas cores luzidias, donde saiam madeixas de tubos acrílicos, nos quais, através da sua cor translúcida se poderia ver, que neles corria a seiva vermelha que os arreigava à vida e o soro incolor que os nutria. A sua permanente e estática posição, não lhes permitia ver os verdes gráficos, na forma de dentes de serra, que em contraste com o fundo de um negro de azeviche, cadenciadamente corriam no ecrã que estava por detrás da sua cabeceira. Apenas sabiam que estes existiam por detrás da sua cabeça, pelo característico e incessante som matraqueado do “tick” “tick”. Som este, que acabava por ser o barómetro com que mediam a sua esperança de vida, pois quando este por algum motivo acelerava o seu ritmo de corrida, poderíamos ver nas suas órbitas o medo de terem chegado ao fim das suas vidas.

Porque neste mundo onde o cheiro a éter e a outros anestésicos pestilenta permanentemente o ar, conferindo-lhe por isso uma atmosfera muito própria, peculiar e diferente de qualquer outro lugar conhecido, e também porque neste lugar tudo o que o envolve e o rodeia é de cor branca, tudo o que simboliza as cores da vida e as atenções de quem é estimado e querido, atingem dimensões de apreço inimagináveis. Até mesmo o valor que é atribuído a pequena coisas, como os nossos objectos pessoais, que tanto nos identificam como nos fazem recordar momentos muito nossos, é completamente surpreendente e de comparação desmedida. Neste mundo branco, tudo tem uma outra importância e tudo tem um outro valor. Por este facto, só as pessoas que passaram por esta antecâmara do inferno, poderão melhor compreender a história dos dois homens gravemente doentes, que aqui se vai narrar.

Os cuidados intensivos do já referido hospital, antecâmara da vida ou antecâmara da morte, onde jaziam os dois homens gravemente doentes, era iluminada por uma torrente de luz solar, que jorrava de uma pequena e alta janela que dava para o mundo. Junto a esta, estava a cama de um homem que em tempos havia sido marinheiro e que presentemente aguardava um dador compatível para um transplante cardíaco, que há muito aguardava e tanto ele ansiava. Este marinheiro fundeado naquela cama já há algum tempo, por razões que se prendiam às escaras que cobriam todo o seu corpo, fruto do muito tempo ali ancorado e acamado, acabara de obter do médico chefe, a permissão de se sentar na cama durante pouco mais do que uma hora por dia e em todas as tardes. O outro doente, antes pelo contrário, apesar das dores insuportáveis que sofria, devido à sua permanente imobilidade, tinha que passar todo o seu tempo deitado de barriga para cima, sem se poder mover ou mexer.

Assim, devido às feridas que cobriam todo o seu corpo, todas as tardes, o homem cuja cama ficava perto da janela, era colocado e aconchegado na posição de sentado. E desde o primeiro dia que lhe atribuíram esse privilégio, ele passou a relatar o que via para além daquela janela e as tardes para ele passaram a ser por isso muito mais agradáveis do que antes. Os dias indiscutivelmente muito mais felizes para ele, era quando via os beirados a gotejar, fartos de chuva ou do cacimbo. Geralmente repetia até à exaustão que aquele era um bom dia, pois se Deus quisesse poderia proporcionar muitos dadores e ele teria o seu novo coração. Outras vezes, vinha-lhe ao cérebro as repugnâncias e os preconceitos e por isso em voz alta comentava de uma forma séria e apreensiva: e se me põem um coração de um efeminado, dum preto ou o de um marginal e eu tomo os seus hábitos, jeitos e manias. A sorte grande era se o dador tivesse apenas dezoito anos, voltaria a correr o mundo e não havia mulher que me fugisse. Este era na verdade o seu tema preferido das longas noites que passava de olhos abertos. Não se cansava de idealizar o seu futuro dador, como o tipo de mulheres que iria conquistar com o seu novo coração.

No entanto, nos dias luminosos e solarengos, o tema do velho marinheiro era outro, pois passava o tempo a descrever o que havia para lá daquela pequena janela. Segundo a sua viva e colorida descrição, aquela janela dava para um florido e arborizado jardim, onde não muito longe daquela janela havia um lago com peixes, patos e cisnes. Era um jardim segundo a sua descrição muito limpo, de arbustos artisticamente aparados e de relva muito cuidada. No lago desse bonito jardim, era costume as crianças atirarem pão tanto aos peixes, como aos patos e aos pardais. Deveria ser um lago muito grande, pois ele relatava como as crianças colocavam na água os seus barcos de brinquedo e como estes velejavam rápido até se perderem de vista. Nesse jardim, as sombras do arvoredo eram muito convidativas ao namoro e ao romance. Muitos casais de jovens namorados passeavam pelas veredas de mãos dadas trocando promessas de amor eterno. Outros havia mais terrenos no amor, que escolhiam os escuros recantos para se entregarem e se perderem. A rapaziada que ainda usava calções, adorava aqueles seus vastos relvados onde zaragateavam e jogavam intermináveis peladinhas. Por trás das frondosas e altas árvores, avistavam-se as silhuetas dos prédios e das moradias de boa arquitectura e de boa construção. Até uma praça com estátua em pedra lavrada havia no seu centro, a qual também se avistava daquela janela do hospital.

O doente condenado à total imobilização, deitado ouvia aquelas descrições com um sentimento de raiva e de inveja mal contida. A pormenorizada descrição da vida quotidiana que passava no jardim e na movimentada cidade, atormentava-o de forma inaudita e quase doentia. O doente que tinha o privilégio de se sentar na cama por uma hora em cada dia, não se cansava de descrever tudo quanto para além daquela janela ele via, apreciando desse modo todos os minutos desse privilégio.

Até mesmo um dia, o homem que não se podia levantar, ouviu a voz desesperada do seu companheiro de infortúnio que assistiu ao episódio de uma criança que caiu ao lago. Felizmente, foi salva por um corajoso marinheiro que ali passava e que se atirou de imediato ao lago. Agarrou a criança pelos cabelos e puxou-a até si. Com o braço esquerdo a rodear a cabeça da criança, nadou com o braço direito até à sua margem. Toda a gente suspirou de alivio e o seu companheiro que fora marinheiro também.

Quando os dias eram quentes e suados, o seu companheiro de janela descrevia com volúpia os esbeltos e torneados corpos das garotas cujos seus trajes muito minis mal os conseguiam cobrir. Ele não se cansava de descrever tanto os seus encantos e como os seus curtos e belos vestidos que mal escondiam as roliças e sensuais formas de mulher, atenazando assim ainda mais o sofrimento do seu companheiro de enfermaria e de inércia.

Eram tão coloridas e vivas as descrições que o seu companheiro de enfermaria fazia, que ele apesar de inerte, e na posição de sempre, quase poderia ver o que estava acontecer naquele movimentado e frondoso jardim.

Pouco a pouco a inveja invadiu e instalou-se de forma definitiva no seu coração. Ocorreu-lhe mesmo pensamentos pecaminosos e censuráveis. Era para ele injusto, que o homem que ficava perto da janela tivesse a sorte e o privilégio de ser o único a ver e a sentir prazer no que estava acontecer no exterior àquele mundo branco. Ele também gostaria de ter a oportunidade de se deleitar com aquela bela e magnífica paisagem de corpos sensuais, gaiatos e roliços. Por educação e por pudor, tentava não pensar nas ideias satânicas e luciferianas que povoavam os seus mais recônditos pensamentos. Quanto mais ele tentava não pensar nessas pecaminosas ideias, mais elas o atormentavam e o invadiam. Ele queria mudar de lugar. Ele faria até qualquer coisa para também ficar à janela e poder ver o que o seu companheiro através dela via.

Numa noite, enquanto olhava para o teto a recordar as sombras do seu passado, o marinheiro subitamente acordou tossindo e sufocando ao mesmo tempo, que o “tick” “tick” deixava de ser um som compassado para ser quase um som gritante contínuo. Ele impavidamente viu como o seu companheiro com as mãos tacteava o vazio na procura desesperada da “pera”, que faria a enfermeira vir correndo em seu auxilio. De súbito, os seu olhos, que já tinham visto muitos oceanos, esbugalharam-se e reviraram-se. O homem deitado observava a agonia do seu companheiro sem se mover e sem um grito ou um gesto no seu pensamento fazer. Mesmo quando o som da respiração do velho marinheiro parou e o “tick” “tick” se transformou num contínuo e ensurdecedor ruído, ele nada fez. De súbito a enfermeira entrou de rompão na enfermaria e encontrou o homem que fora marinheiro já sem vida. Puxou de imediato as cortinas que estavam enroladas no lado do homem que estava condenado a não se mexer, as quais não o impediram de ver as silhuetas de muitos médicos a entrar e a sair daquela sala. Por fim, levaram a cama com o corpo inerte, para pouco depois esta regressar já vazia, como se nunca alguma vez alguém nela estivesse deitado.

Assim que lhe pareceu adequado e oportuno, o homem condenado a estar sempre deitado perguntou à enfermeira chefe se podia passar para a cama junto à janela, com a desculpa da claridade que dela brotava. O pedido para sua hilaridade e satisfação foi de imediato por ela aceite. Deitaram-no e aconchegaram-no sob as cobertas dessa cama que havia sido o leito do seu companheiro de infortúnio e de imediato este foi invadido por uma sensação de conforto, de satisfação e de bem estar. Logo que o pessoal de enfermagem saiu daquela sala, ele apoiou-se com dificuldade sobre um cotovelo e olhou pela primeira vez para fora da janela e surpreendentemente viu apenas um alto muro que cobria toda e qualquer visão.

Em suma, a nossa vida foi, é, e sempre será aquilo que nós queremos que ela seja. Deveremos por isso valorizar as pessoas que fazem o possível para tornar a sua vida muito melhor, pois elas conseguem com esse gesto ser muito mais felizes do que aqueles que o não fazem.