sexta-feira, 21 de novembro de 2008

A Fogueira e as Três Negações de Pedro

São Lucas descreve a prisão de Cristo:

“ Prenderam-no e levaram-no, introduzindo-o na casa do Sumo Sacerdote. Pedro seguia de longe. Tendo eles acendido uma fogueira no meio do pátio, sentaram-se ao redor, e Pedro sentou-se no meio deles. Ora, uma criada viu-o sentado perto do fogo e, encarando-o, disse: «Este também estava em companhia dele!» Ele, porém negou: «Mulher, eu não o conheço.» Pouco depois, um outro, tendo-o visto, afirmou: «Tu também és um deles!«Mas Pedro declarou: «Homem, não sou.» Decorrida mais ou menos uma hora, outro insistia: «Certamente, este também estava com ele, pois é Galileu!» Pedro disse: «Homem, não sei o que dizes!» Imediatamente, enquanto ele ainda falava, o galo cantou, e o Senhor, voltando-se, fixou o olhar em Pedro. Pedro então lembrou-se da palavra que o Senhor lhe dissera: «Antes que o galo cante hoje, tu me terás negado três vezes.» E saindo, chorou amargamente.”

Numa noite gélida e muito fria, uma atractiva e convidativa fogueira nos jardins da casa de Caifás, crepitava com fortes estalidos, provocando pequenas erupções, o que fazia com que delas brotassem pequenos e incandescentes cometas, os quais, pelos gestos de desassossego do pequeno grupo de criados e soldados que ao seu redor conversavam e se aqueciam, os incomodavam como se de um enxame de mosquitos se tratasse. Da penumbra que envolvia esta fonte de luz e de calor, uma figura sorrateira, triste e tiritante, pachorrentamente se aproximou da brilhante e hipnótica fogueira. No seu rosto cobreado pelo reflexo matizado pela dança das labaredas, nele se antevia o desenho de uma forte angústia e as marcas da grande ruína que ia no seu coração. O frio o havia impelido para aquela fogueira, para aquele farol e na certa também, para ela o havia aproximado a sua cobardia pelos algozes.

Apesar das sombras da noite o cobrirem parcialmente, estas não foram impeditivas, para que um dos soldados daquele alegre e hilariante grupo, arguto e sagaz, o reconhecesse e por isso de imediato o interrogou de forma rude e quase brutal: se ele não era um dos seguidores de Jesus o Nazarero. Com a máscara do medo e do terror reflectida no seu rosto, dos seus lábios sem se aperceber irrompeu a sua primeira negação. Ficou surpreendido e atónito ante o seu próprio pecado. Mudo e estupefacto, aproximou-se da tentadora e hipnótica fogueira. Assentou-se junto aos demais com as pernas cruzadas e os braços abandonados no seu regaço, completamente imóvel e inerte, olhando somente fixamente as chamas e as labaredas da fogueira, que incansavelmente bailavam e rodopiavam sobre os incandescentes ramos, toros e madeiros, os quais estavam por isso, embebidos em luz e calor. Pedro, com o seu olhar fixo naquele fogo selvagem, procurava varrer da memória a imagem do Mestre que acabara de trair. No entanto, sem qualquer sucesso, uma vez, que na sua cabeça intensamente matraqueava a constante interrogação, que culpa tinha ele da negação que acabara de fazer? Se já repetidas vezes Lhe tinha dito, que não compreendia as suas palavras e que os seus milagres mais lhe pareciam magia egípcia do que santos fenómenos, e se cumpria a missão que lhe havia sido por Ele confiada, é porque fazia um grande esforço para acreditar naqueles milagres, embora, com mais medo do que fé.

Mas, pela visível grande tristeza, que nublara a sua alma com os cinzentos mais profundos, que numa paleta de cores um artista poderia imaginar, verificava-se que não era uma tarefa fácil e estava condenada desde o princípio ao seu fracasso. Por isso, o seu olhar estava vazio e fixo naquelas belas e ardentes chamas bailarinas e devassas. Chamas que tudo em sua volta iluminavam, coloriam e aqueciam. Só o seu coração continuava gelado e petrificado, o fracasso destas chamas era notório naquele desconsolado retracto de abandono e de desespero, pois estas não o conseguiam de modo algum aquecer e derreter o invólucro de gelo, que envolvia o seu frio e gélido coração abandonado.

Pedro olhou de soslaio para os seus companheiros de braseiro e reparou, como todos se aproximavam daquele fogo com um visível prazer e deleite, como reparou ainda, que todos o contemplavam longamente e agora, em ameaçador silêncio, quase como que em profunda meditação ou em total adoração ao deus Vulcano, este tentava desse modo se ocultar daqueles perigosos olhares inquisidores.

O êxtase daqueles adoradores desse deus mitológico era por demais evidente, pois eles não se cansavam da sua quente presença nem do seu característico ruído de surdos estalidos e de um fervilhar permanente e constante. Nessa adoração, eles não se incomodavam por sentir as suas fortes ondas de calor, como também não se cansavam de ver as coloridas e brilhantes chamas multiformes em danças míticas e sonhadoras.

E ali, naquela hora em que normalmente habitam as trevas e os medos, aquele fogo parecia mais brilhante e mais luzidio do que todos os fogos que até aí Pedro então vira. Tanto os seus vizinhos como ele, por mais que admirassem aquele intenso lume não ficavam entediados ou enfadados, tal era a variedade dos infinitos tons azuis, laranjas e vermelhos que dele irradiavam, conferindo-lhe uma hipnótica e estonteante rara beleza. Pedro, no entanto via naquelas chamas uma mensagem reveladora e aterradora. Ele via naquela misteriosa e fortíssima luz que delas irradiava, mistérios muito acima dos que o seu Mestre lhe havia ensinado. Aquele fogo era por demais maravilhoso e hipnotizante pelos seus profundos contrastes de luz. Era um fogo invulgarmente forte e poderoso. Pois ora revelava uma suavidade e uma infinita calmaria, ora revelava uma potência aterradora e assustadora. No entanto para Pedro, este brilhante fogo irradiava por vezes um pacífico e calmo calor, para de seguida fazer com que o seu espírito crepitasse naquelas soltas, tresloucadas e devoradoras labaredas.

Nesta profunda absorção e nesta total meditação e adoração, Pedro quase mal ouviu ao longe alguém que o interpelava de novo, dizendo que o vira com Jesus no Horto. E Pedro pela segunda vez se acovardou e O traiu. Aterrado, ele não ousava fixar o olhar interrogativo e suspeitoso dos criados e dos soldados ali presentes à roda daquele fogo símbolo do seu desconsolo e da sua angústia. Ele só olhava para aquelas labaredas, que subiam em espirais e em forma de retorcidas colunas corínteas. Estas línguas de fogo, pareciam espadas chamejantes que subiam cada vez mais alto, parecia mesmo dedos que apontavam para o infinito, indicando-lhe que nele habitava uma divindade com um poder maior.

Pedro, continuava atónito com aquelas chamas invulgarmente altas, como continuava também estupefacto com a sua estonteante luminosidade, brilho e cor, que tudo matizava e que tudo envolvia na sua poderosa e forte luz. Mas, para além desta luminosidade encandescente, o que mais o surpreendia era como elas tendiam sempre para o alto! Sempre para o infinito! Como elas o obrigavam a olhar para o céu! Como elas eram ferozes e vorazes, pois tudo o que os criados e os soldados nelas lançavam, por mais podre e sujo que fosse, era de imediato por elas envolvido e por elas era transformado em fumo e em cinza. Estas chamas eram ditadoras implacáveis no seu domínio, pois não toleravam nada que lhe fosse oposto, não suportavam nada que tivesse corpo e que fosse opaco ou impuro. Como também não toleravam nada que fosse frio ou sem luz. Ao seu contacto, elas tudo purificavam ou tudo destruíam. Eram Juizes soberanos no seu tribunal marcial, cujas sentenças só duas conheciam, ou se subia com elas para o alto em luminosas fagulhas, ou se era transformado em escuras e inertes cinzas. Isto é, elas eram soberanas e ditadoras na sua imperativa vontade, e só duas sentenças conheciam: a purificação ou a punição.

Pedro com o seu coração imerso nas mais profundas trevas, temores e terrores, angustiado e assustado gemia ante o insondável abismo da sua queda. Ele temia pelo seu futuro, já que traíra o Mestre. Mas, ao mesmo tempo estava confuso, pois aquele devorador fogo parecia apontar para uma divindade ainda maior que Ele, pois ele tudo consumia e tudo arrebatava, numa luz poderosa, envolvente e ardente, que apontava o céu como o destino certo para todos aqueles que eram envolvidos pela sua poderosa Luz e calor.

Pedro voltou a estremecer assustado, quando uma criada grosseiramente o acusou. E mergulhou ainda mais nas trevas, por medo e por cobardia, voltou a perjurar, traindo-O uma terceira vez. Pedro salpicado e manchado de sombras, estava horrorizado ante o negro abismo da sua covardia, e continuou a fixar aquele fogo narcotizante e doentio, sem conseguir desviar o seu olhar que nele estava perdidamente cativo. Com o olhar parado e fixo, naquelas labaredas dançarinas, Pedro conseguiu ver então, na sua raiz, as vivas e demistificadoras brasas incandescentes. Pedro conseguiu ver o cerne e a origem daquela poderosa luminosidade devoradora de trevas e demistificadora de escuridões e medos.

Tudo o que se lançava naquele fogo devorador era consumido. De igual forma, tudo o que se deixava envolver pela suave carícia da sua poderosa luz, ou que se deixava tocar pelo seu brilhante calor, se tornava igual a ele. Brilhante, luzidio e quente. Mesmo até os galhos verdes, e até mesmo os carvões, se tornavam como ele brilhantes e ardentes. Tudo era ele, cheios de luz, de cor e de calor, de graça e de verdade. Porque quem conheceu a luz da Verdade e o calor do Bem, e os aceitou, se torna, pela Sabedoria e pelo Amor, luminoso e ardente. E os galhos que dele se retiram, que, depois de se terem tornado semelhantes a ele, o renegam, e dele se afastam, esses perdem a luz e o calor, e ficam piores do que antes: opacos, negros e frios carvões apagados.

Foi então que Pedro ouviu o canto do galo. Foi então que os olhos de Pedro com um clarão deslumbrante proveniente daquela misteriosa fogueira, momentaneamente o cegaram, ao mesmo tempo que uma doce, forte e imperativa voz na sua consciência se fez ouvir dizendo: Eu Sou a Luz que te dá a Sabedoria; Eu sou a Luz que te dá a Força; Eu sou a Luz que te dá a Beleza; Segue Pedro essa luz que se agiganta no teu coração e que toma por completo todo o teu corpo. Segue essa Luz que te envolve, e que se funde com a Luz de todo o Planeta, que se funde com a Luz de todo o vasto e infinito Universo. Pedro! Banha-te nessa Luz de que um dia dela farás parte integrante numa total eternidade. Pedro, com o lento retorno da sua visão, reparou ainda com maior perspicácia e pormenor, como as chamas daquela fogueira eram altivas e desafiadoras. E por isso, chorou amargamente e profundamente perante as certeza que acabara de receber da Santíssima Trindade.

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