sexta-feira, 21 de novembro de 2008

Um Sonho no Centro de um Pesadelo

Naquela manhã de um frio dia de Dezembro, em que os raios de sol timidamente lambiam e aqueciam o meu rosto, e o gélido vento libertinamente desgrenhava e desalinhava o meu cabelo em múltiplas madeixas, a traição silenciosamente rondava de perto o meu coração. De súbito, na boca do meu estômago, uma lenta e crescente dor aguda repticianamente marcava a sua nefasta presença, confundindo a minha ingénua mente com a ingestão de alimentos já fora de prazo e por isso, confundiu-a e enganou-a com uma dor de passagem e sem qualquer importância. Mas, a sua agressividade e violência desmentia a inocência com que esta se tinha aproximado e invadido todo o meu ser. Tal era a sua ferocidade e a sua crueldade, que mesmo com os braços tenazmente cruzados sobre o meu peito num forte abraço e dobrado sobre este, esta teimava em não abrandar, antes pelo contrário, crescia desmesuradamente e agigantava-se num fogo infernal e insustentável, como que a cumprir uma terrível e brutal sentença de um maléfico e cruel deus. Os meus olhos desesperados e aquosos eram como os de uma criança, que perdida no desconhecido, varriam incessantemente o horizonte na busca do socorro, que demorava e que tardava. Mas, aquele polvo de tentáculos terríveis envolveu todo o meu peito, como seu senhor e seu dono, numa gigantesca fornalha de dor e de sofrimento, que mais parecia permanentes torcicolos que nos deixam à beira da loucura e da demência, por ausência de qualquer outro raciocínio lógico, que não seja o desaparecimento daquela terrível e insuportável dor.

Amarrado e afivelado à maca da ambulância, sem mais nenhum cuidado que não este, a esperança de sobrevivência a este feroz e traiçoeiro ataque renascia. Naquele leito de dor e de esperança, senti que a vida se me desvaía, pouco a pouco, e por isso, senti que o meu fim inexoravelmente estava próximo, e tanto mais, que os sinais desse fim eram por demais evidentes. Primeiro, pelo completo desligar da audição, a qual, no início me começou por parecer, que tinha mergulhado os ouvidos nas profundezas oceânicas e por esse facto, a distorção dos sons se justificava. Não tardou muito, que esses distorcidos e longínquos sons, que mais pareciam estarem a ser difundidos através do vácuo, por completo se extinguissem num total e permanente silêncio. Segundo sinal, as forças, que também elas se me despediram, deixando com a sua partida, o meu corpo completamente inerte, totalmente abandonado e sem qualquer movimento ou reacção que lhe dessem sinal de vida. Por último, a visão das cores da vida que nos é tão amada e querida, começou por desfocar toda a imagem que me envolvia, transformando-a numa esbranquiçada névoa disforme, que lentamente se escureceu até à total invasão da profunda escuridão, paradeiro dos medos e dos mistérios. Todos os órgãos, um a um, depois de se despedirem de mim, se desligaram e pararam.

Só a minha mente estava no seu estado mais puro e mais perfeito, no entanto, ela estava ocupadíssima a recordar tudo quanto de belo deixava neste mundo, como que a elaborar um balanço das boas e das más acções que foram praticadas nesta vida. O resultado, pelo sulco e o rasto deixado por alguma lágrimas que brotaram dos meus olhos baços e vítreos já sem vida, era de sinal positivo e o único sinal de vida que o meu inerte corpo emanava. Embora estivesse mergulhado na mais profunda das escuridões e amarrado àquele leito de sofrimento e de dor, que parecia brevemente vir a ser um leito de infortúnio e de morte, eu ainda tinha alguns restos de esperança na sobrevivência, pois sabia, que aquela viatura branca com a cruz vermelha pintada nas suas portas, estava nesse momento a percorrer de forma tresloucada e louca as ruas de Lisboa, com os seus estridentes gritos de agonia, de aflição e de desespero, provenientes das suas sirenes, na tentativa máxima e última de contrariar o presságio que parecia mais que certo. Em meu redor habitava o total silêncio, e a mais profunda das escuridões era a minha companheira. Ao contrário do que se poderia esperar numa destas desesperadas e dramáticas situações, eu não estava aterrorizado e a ausência do medo em todo o meu ser era total e por completo. Lembro-me, que apenas me veio à mente, que iria por fim enfrentar o desconhecido e desvendar o mistério de todos os tempos. Alguma coisa no meu interior me dizia, que mesmo estando imerso na mais profunda das escuridões e mergulhado no maior dos silêncios, eu estava em segurança, pois eu senti que apesar de ter sido projectado para uma outra desconhecida dimensão, nesse lugar, eu estava entre amigos. E na verdade, todo o meu raciocínio estava certo e correcto. Pois eu conseguia ouvir agora em meu redor vozes murmuradas e sons abafados, sinais evidentes de que não estava só.

Uma mão firme segurou e agarrou a minha mão, guiou os meus passos no desconhecido, ao mesmo tempo que numa voz serena, segura e confiante, respondia às muitas perguntas que me faziam, e tanto pela rectidão, como pela profundidade e a veracidade dessas respostas, eu estava sinceramente imbuído e tomado pela importância e pela majestade do momento.

Através do contacto e da pressão dessa mão amiga, que me segurava e que me guiava os passos no desconhecido, eu senti sempre a presença da segurança e da tranquilidade, mesmo no percurso de algumas desconhecidas e acidentadas viagens que fiz. Pois, eu nessas desconhecidas viagens, senti sempre que estava a ser bem conduzido e guiado, e por isso as enfrentei com a determinação, a tenacidade e a coragem indispensável para ultrapassar e vencer os desconhecidos obstáculos e perigos, que em cada momento me esperavam. Assim, em segurança, caminhei por estranhos e bizarros lugares, através tanto de sinuosos e tortuosos caminhos, como por suaves declives e largas avenidas. Sempre que regressei de cada uma dessas misteriosas e difíceis viagens, fui sempre amparado e confortado por desconhecidos, que ao meu ouvido sussurraram palavras murmuradas que me transmitiam conforto e estimulo, ao mesmo tempo, que me transmitiam estar bem acompanhado e de estar sempre em segurança. Mas, o mais estranho e o mais difícil de compreender, é que mesmo que nada me fosse sussurrado, mesmo que nada me fosse dito, eu tinha a sensação de estar amparado, e de estar a ser assistido com a mestria e a segurança de quem sabia o que estava a fazer.

É certo, que eu desejava mais do que tudo, obter a necessária luz que findasse aquela total escuridão, que me envolvia nas permanentes trevas, mas não por desespero ou por medo, mas sim para poder ver aquelas pessoas que sentia serem minhas amigas. Eu desejava e queria a luz, porque algo no meu interior me dizia, que ao recebe-la, esta mudaria profundamente a minha vida, ela mudaria por completo os meus pensamentos e toda a minha forma de estar e ser, pois eu fazia parte de uma outra dimensão e quiçá no princípio de uma outra vida através da reencarnação.

E o meu desejo foi ouvido e foi correctamente interpretado e talvez por isso, este foi de imediato cumprido. A luz com toda a sua magnificência e imponência me foi restituída. E nesse estado de graça, repentinamente me vi num imenso templo, que representava todo o nosso universo. As suas dimensões não tinham limite nem fim, uma vez que estas iam do Norte ao Sul, do Ocidente ao Oriente, do Centro da Terra ao Céu infinito. Dentro deste Templo, muitas pessoas me encaravam, com os seus semblantes tranquilos e suaves, que embora me fossem semblantes desconhecidos, me eram estranhamente familiares, como se de antigos familiares e de amigos se tratassem.

Não eram muitos os rostos presentes naquela celestial recepção, mas estranhamente também me pareciam ser milhões e por isso representavam todo o universo. Estes serenos vultos, também estranhamente me pareciam mais do que vultos de pessoas comuns, mais do que vultos de pessoas amigas... eles me pareciam vultos de irmãos!

Um destes queridos vultos irmãos, envolto e engalanado por uma brilhante aura, que me provava estar inspirado por algo de maior e de mais Divino, me explicou com a doçura e a candura dos homens bons, onde estava e quais foram as razões que me levavam àquele lugar sagrado. Num gesto que abrangeu todo aquele estranho templo, ele me explicou com a paciência e o saber dos mestres, que as dimensões sem fim daquele templo, representavam todo o infinito universo. Eu olhei surpreso e curioso em redor daquele lugar sagrado a fim de confirmar tais dimensões, e de imediato fui atraído por uma forte e poderosa luz que vinha do Oriente, local onde se encontrava o trono do irmão dotado da auréola mágica, o qual, compreendendo o meu fascínio e a minha curiosidade para tudo o que me rodeava, me esclareceu dizendo, que aquela sublime e magnífica luminosidade provinha do Sol, o nosso astro rei, e que aquela luz simbolizava o conhecimento humano e a Doutrina do Amor, que nos havia sido presenteada nos começos dos tempos por Deus.

O meu encanto e entusiasmo era tamanho, que era visível a minha ansiedade e a minha avidez por conhecer com a profundidade dos cientistas, aquele maravilhoso e encantador lugar sagrado. Com um sorriso condescendente, esse irmão que tinha assento no Oriente e auréola de luz que lhe conferia o poder da divindade, me explicou com a sabedoria e a paciência de quem muito sabe, tudo o que de estranho me cercava e me rodeava.

Ainda me contou este mestre do conhecimento e do saber, uma estranha história a respeito do Tabernáculo erigido no deserto por Moisés, o qual foi a fonte de inspiração do local onde me encontrava. Contou-me ainda este irmão dotado de luz mágica, que o sábio Salomão, querendo glorificar o Pai Eterno, criador dos mundos, erigiu num certo dia um belo e magnífico templo, apoiado sobre três grandes pilares, denominados de Sabedoria, de Força e de Beleza. Nesse templo celestial, vi claramente esses três pilares, que estavam representados por irmãos iguais a mim, mas dotados de uma unção especial, de uma luz diferente e com uma auréola que os diferenciava dos demais, conferindo-lhes por isso maior altivez, maior dignidade e maior majestade. Esses queridos irmãos, que estavam sentados em tronos que representavam as colunas Jônica, Dórica e Coríntia, as quais alegoricamente representavam os pilares do Templo de Salomão, eram também eles neste templo de maravilha os seus pilares mestre.

Sobre as nossas cabeças, pude ainda apreciar uma abóbada de um profundo azul celeste, pontilhada por faiscantes e encandescentes micro pontos de luz, que me dava a impressão e a sensação de não ser tangível, nem tão pouco de ser composta por matéria. Olhei-a com a minúcia de quem a estuda e de quem a analisa, e logo me deu a impressão e a sensação de que estava numa alta montanha, contemplando do seu cimo, o infinito azul céu estrelado. Percebi e entendi de imediato, que a minha missão naquele lugar, era atingir a plenitude deste maravilhoso céu infinito, afim de chegar cada vez mais perto do nosso Criador. Por momentos, hesitei um pouco na formulação da pergunta, afinal de contas, é sempre muito difícil interpretarmos aquilo que vemos pela primeira vez, e por isso, com alguma timidez perguntei ao irmão que era também o meu guia, o que deveria eu fazer para alcançar aquelas estrelas tão brilhantes e tão distantes?

Ainda não tinha eu terminado a pergunta e sob um clarão de luz intensa, surgiu do nada uma luminosa escada, com milhares e milhares de degraus, e em cada um deles, tantos irmãos amigos quanto estes, convidando-me com gestos prazenteiros e de gentileza a iniciar a escalada daquela luminosa escada sem fim. Com a pressa dos principiantes, tentei galgar rapidamente os degraus. Mas, fui delicadamente barrado pelo primeiro irmão amigo, que me informou que naquela escada eu a deveria subir, degrau a degrau, até atingir o seu cume, que era o local onde estava o Pai eterno, mas que para isso, eu precisaria de muito tempo, de muita dedicação e de muita aplicação nas sucessivas reencarnações que me esperavam. No entanto, o primeiro degrau, conquistei-o ali mesmo tal era a minha pressa e a minha ansiedade.

A tranquilidade que me envolvia naquele templo era absoluta e total. Embora a escada continuasse ali, fulgurante e luminosa, com um irmão amigo em cada um dos seus degraus, o profundo silêncio era soberano e ali reinava em plenitude. Aquela escada era de dimensões desmesuradas e descomunais, uma vez que descia do infinito celeste e terminava num pavimento constituído por losangos brancos e pretos intercalados entre si. Olhados de cima do primeiro degrau daquela luminosa escada, parecia-me um tabuleiro de xadrez, onde em remotos tempos tanto me perdi em estratégias de combate e de vitória. Tive a sensação de que estes losangos, mesmo que diferentes, opostos e antagónicos nas suas cores, cada um deles se completava e vice versa. E tal como aqueles losangos, todos nós temos as nossas diferenças, no entanto estamos unidos em comunhão e em fraternidade, uma vez, que o nosso Criador foi um só. Senti uma grande felicidade quando o meu guia, parecendo adivinhar os meus pensamentos, concordou comigo, e me confidenciou que tal pavimento representava na verdade, a harmonia e a coesão de todos os que ali se encontravam.

Sempre com este irmão como uma sombra a meu lado, conheci muitos detalhes deste majestoso templo. Com a sua ajuda cheguei mesmo a descodificar misteriosos e enigmáticos símbolos, que representavam tanto a moral, como a justiça e a rectidão de que todo o ser humano se deveria pautar na sua curta e breve existência por este mundo. Eu estava de facto profundamente impressionado e glorificado pelo ensinamento e a riqueza ímpar que recebia daquele meu guia irmão amigo.

Depois destes sublimes ensinamentos, fui conduzido a um dos cantos daquele mágico templo, e fui apresentado a uma pedra escura, bruta e disforme. O meu guia perguntou-me o que eu via nela. À primeira vista, a resposta que me parecia mais óbvia e lógica, uma vez que simplesmente nela via uma pedra bruta e nada mais do que isso, seria responder que era uma pedra bruta e disforme. Mas dando ouvidos às sensações e vibrações que do meu coração emanavam, respondi que me via retractado naquela pedra, uma vez que ela estava na forma que o Criador me havia concebido. Uma pedra bruta e disforme, que em mãos hábeis me transformaria numa pedra bem talhada e acabada, que viria a servir como material de construção bom e importante, para a edificação de um mundo melhor na reencarnação que já se me adivinhava. Compreendi sem a necessidade de uma explicação adicional, que a mão mais hábil para polir e talhar aquela disforme pedra, era justamente a minha. Pois em mim estavam encerradas e reunidas todas as necessárias ferramentas, para melhor executar aquela tarefa, que havia sido determinada pelo Criador.

Aquele irmão possuidor da sabedoria divina, explicou-me ainda com a calma e a paz dos anjos, que a energia proveniente da luz do Oriente, tanto nos outorgava saúde e bem-estar, como nos convertia em livros abertos, onde em uns estaria escrito o passado, noutros estaria escrito o presente, e em outros ainda estaria escrito o futuro. Deu-me ainda a perceber esta sombra amiga, que quando conseguíssemos encontrar e ler esses livros mágicos do conhecimento. Então, estaríamos imbuídos da chama da vida eterna, e por esse facto, seríamos deuses que iluminariam o caminho de outros homens.

Disse-me ainda esse irmão guia amigo, que no homem o seu sémen o aproximava de Deus, em virtude do seu poder criador lhe ser a Ele comparável. Perante a minha estupefacção e até mesmo algum pudor, este irmão amigo ainda me confidenciou, que naquele fluído da germinação e da criação do homem, para além de ser um tónico purificador dos seus músculos e do seu sangue, habitavam nele os anjos da luz e os arcanjos das trevas. Disse-me: que os anjos como criaturas de luz que eram, tanto representavam a energia luminosa e criadora de Deus, como eram também possuidores da sublime sabedoria Divina. Ao passo, que os arcanjos que nesse fluido também habitam, representam a tenebrosa energia que é a mais nociva sabedoria que habita na mente humana, e que somente pela iniciação se poderia romper as trevas da ignorância e a barbárie que habita no espírito de cada homem.

Naquele templo etéreo, eu sentia que estava realmente entre irmãos, e que aqueles momentos eram para mim mágicos e sublimes de conhecimento e de saber. Olhei o meu passado com saudade, não nego, e logo compreendi, que tinha deixado a minha obra inacabada, uma vez que a construção do meu templo interior ainda apenas estava nos seus alicerces e por isso, àqueles meus irmãos celestiais humildemente confessei a minha falha, e com modéstia lhes implorei a permissão do meu regresso ao mundo dos vivos, a fim de completar a obra que havia deixado incompleta e inacabada. O sorriso do irmão mestre e meu guia, foi o evidente sinal da sua concordância e da aceitação dessa benesse e com a sua mão ele cobriu os meus olhos, que voltaram a mergulhar na mais intensa e profunda das escuridões.

Do profundo negrume, surgiu uma branca e luminosa névoa, que pouco a pouco fez os vultos em meu redor tomarem cor, nitidez e forma, ao mesmo tempo que sentia umas ligeiras cócegas no meu peito ainda inerte e sem vida. De súbito, uma potente luz jorrou e fulminou os meus olhos ao mesmo tempo que dava forma clara aos rostos transpirados e suados, com gorros e máscaras verdes, que debruçados sobre mim freneticamente me aplicavam desesperadamente e cadenciadamente murros e choque eléctricos. Uma voz, muito parecida com a do meu Divino irmão, disse-me com a mesma doçura, com a mesma calma e com a mesma segurança, que eu havia tido um enfarte seguido de paragem cardíaca, mas que agora tudo estava bem, que fechasse os olhos e descansasse com tranquilidade e sossego, pois eles velariam por mim. Eu, completamente esgotado e exausto das sucessivas viagens que havia efectuado, prontamente lhe obedeci e fechei os olhos. Quando despertei nos cuidados intensivos de um grande hospital de Lisboa, revivi os ensinamentos que me foram dados, naquilo que agora me parecia ter sido um agradável sonho. Hoje, estou convicto da graça que me foi atribuída a fim de completar a minha obra que continua ainda inacabada, embora esteja sempre pronto para voltar a esse templo sagrado, a fim de prestar contas tanto sobre o meu templo interno, como a prestar contas sobre o meu templo externo, a esse meu querido irmão amigo, que tem assento no oriente desse templo mágico e que me espera.

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