sexta-feira, 21 de novembro de 2008

O Sonho das Oliveiras

Numa inóspita e isolada planície, ora fustigada por fortes e cortantes ventos norte, ora banhadas por pachorrentas e solarengas calmarias, três oliveiras, pouco mais que rebentos, habitavam por um acaso que desconheciam, nesse descampado paradeiro de coisa nenhuma e de todos esquecido. Estes pouco mais que arbustos, estavam abandonados à sua sorte e à mercê dos caprichos do acaso e das intempéries, totalmente desprotegidas das suas iguais, dado serem as únicas árvores existentes em alguns quilómetros no seu redor.

Numa certa noite, quando o grande astro transformou a noite em dia, os pequenos arbustos ainda despertos pela forte e mística luz que os envolvia, deram largas à sua imaginação e sonharam alto o que queriam ser depois de crescerem, serem fortes e serem grandes.

A primeira oliveira, olhando o firmamento e vendo naquela abóbada celestial os inúmeros e minúsculos pontos luminosos, que chispavam e faiscavam como diamantes de primeira água, disse:

- Eu quero ser o receptáculo dos maiores e mais magnificentes tesouros existentes ao de cima da Terra. Para tal, até me disponho a ser cortada e a ser talhada em finas tábuas.

A segunda oliveira, alargou e aprofundou as suas vistas, e muito ao longe viu as sombras duma fieira do que parecia serem olmos, a qual fazia adivinhar serem estes, a guarda de honra de um riacho que ali passava sempre a caminhar para a frente e sem recuos, e suspirou dizendo de seguida:

- Eu quero ser uma grande galera, uma grande nave ou um grande navio para transportar reis, nobres e grandes senhores por essas desconhecidas vastidões do mundo.
A terceira oliveira olhou em seu redor e disse:

- Eu quero ficar precisamente neste local e crescer tanto, tanto, que as pessoas para admirarem a minha frondosa copa, sejam obrigadas a levantem os seus olhos e olhando assim para o alto, são obrigadas a pensar em Deus.
Muitos luares vieram depois deste. Muitas invernias as fustigaram, ventos ciclónicos as vergaram e até mesmo, raios vieram que deceparam membros destas árvores que teimavam na sua permanente solidão e no seu total abandono. Durante muito tempo estiveram esquecidas e abandonadas. Até os seus negros e gostosos frutos eram desprezados e apodreciam inertes no chão. Mas, a pesar destas vicissitudes, elas continuavam na esperança da realização dos seus sonhos, e por isso, com estóica e desmedida coragem tudo suportavam. Com o tempo vieram a crescer largas, robustas e fortes.

Num certo dia, não se sabe porquê nem de onde, àquele descampado chegaram três lenhadores e cada um deles cortou uma daquelas velhas amigas, ao som dos seus gemidos, dos seus queixumes e dos seus choros, por se apartarem de tantos anos de solidária convivência e companhia. No entanto, ao mesmo tempo que estas manifestavam o desespero e a desolação pela iminente separação, elas estavam também ansiosas por saberem se os seus sonhos seriam, ou não, finalmente realizados e concretizados.

O destino fez com que a primeira oliveira se transformasse numa manjedoira, para um dos descendentes do boi “ápis”, a qual era para este, nada mais que o seu receptáculo da palha e do feno, que todos os dias o alimentava e o nutria.

A segunda oliveira, foi transformada num simples, humilde e pequeno barco de pesca, o qual todos os dias era utilizado na árdua faina pesqueira, carregando por isso, dia a dia, os pescadores, os instrumentos de mareagem e de pesca, e o peixe em grande quantidade.

A terceira oliveira, apesar de ter sonhado ficar naquele lugar que a viu nascer e crescer, acabou por ser cortada em altas e fortes vigas, que foram armazenadas num depósito de madeira para posterior utilização.
E com este destino, as três oliveiras interrogavam-se desiludidas e tristes pela sua sorte:

- Porquê este destino? Que ingénuas fomos nos nossos sonhos, que acabaram por acalentar toda a nossa vida em vão. Eles foram a razão e o cerne, para que com coragem e determinação enfrentássemos todas as vicissitudes que se nos depararam. Estivemos sempre na esperança, de que estes um dia se realizassem e concretizassem! Valeu a pena tanto sofrimento e tanto martírio naquela solidão e naquele descampado para acabarmos nisto? A desilusão destas árvores era absoluta e do mais sincero.

Mas, numa certa noite gélida e muito fria, um jumento chegou junto à manjedoira, carregando nele uma mulher muito jovem de rosto com o esgar do sofrimento e das dores de parto. Nessa fria noite desse distante Dezembro, que viria a dividir para sempre os tempos, essa Mulher colocou o seu bebé recém nascido nesse receptáculo de feno, o aconchegou e aqueceu o seu Menino, com o calor das palhas. Naquele improvisado berço, aquela Santa mulher aproveitou também tanto o calor que provinha do descendente de “ápis”, de pêlo vermelho luminoso cor do fogo, e de grandes chifres do mais puro branco, que já habitava aquele lugar algum tempo, como também aproveitou o calor do jumento que a havia transportado, cujo o pêlo lembrava um adiantado crepúsculo, de orelhas compridas e crina curta. Assim, e como berço, aquela oliveira fez parte do maior acontecimento e mistério da história da humanidade. E de repente, esta árvore sonhadora percebeu, que ela continha o maior tesouro do mundo.

Quanto à segunda oliveira, anos mais tarde e depois de muito já ter navegado, acabou por num certo dia transportar um homem, cuja aparência lhe chamou a atenção, pela sua extrema bondade e pelo amor que dele irradiava. Nessa mesma noite, quando esse homem de manto branco e imaculado, na popa do velho barco a sono solto dormia, agigantou-se uma vigorosa e terrível tempestade, que quase afundou o pequeno velho barco de pesca. O homem acordou com o queixume desesperado da oliveira, levantou-se, e disse numa segura, majestosa e alta voz: "PAZ"! e o mar encolerizado de imediato se acobardou, ficou dócil e mansamente lhe obedeceu. Nesse momento, a segunda oliveira percebeu, que estava carregando e transportando o Rei dos Céus e da Terra, cujos os elementos Lhe obedeciam e Lhe prestavam vassalagem.

Anos mais tarde, numa sexta-feira, a terceira oliveira ficou surpreendida e atónita quando as suas vigas foram unidas em forma de cruz e um homem nela brutalmente e rudemente foi pregado. Tamanha crueldade fez com que se sentisse ignóbil, horrível e vil. Mas, quando no domingo imediatamente a seguir, o mundo vibrou e jubilou de alegria, a terceira oliveira percebeu que nela havia sido pregado um homem para a salvação da humanidade, e que as pessoas sempre que olhassem para ela, se lembrariam de Deus e do seu filho Jesus Cristo.
As três oliveiras, em remotos tempos haviam tido um sonho. Chegaram mesmo a duvidar e a maldizer a sua sorte. Mas a realização e a concretização dos seus sonhos, foram de uma dimensão maior e mais sábios do que estas alguma vez haviam imaginado. Todos nós temos os nossos sonhos, os nossos projectos e os nossos planos para a vida, que por vezes, não coincidem com os planos que Deus arquitectou para nós. E quase sempre, somos surpreendidos com a sua generosidade e com a sua misericórdia. Por isso, o nosso destino está traçado desde o dia em que nascemos, até ao dia em que iremos morrer. Rememos o que remarmos, caminhemos o que caminharmos, seremos sempre aquilo que o Grande Mestre nos destinou para este maravilhoso mundo. Acreditemos pois nos nossos sonhos e esteja-mos sempre preparados e prontos para a sua realização e para a sua concretização.

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