sexta-feira, 21 de novembro de 2008

A Vida Imaginária

Nos cuidados intensivos de um hospital da cidade de Lisboa, dois homens jaziam imóveis em duas articuladas camas de enfermaria, com o seu esquelético corpo ceráceo, amarelecido e abandonado. Rodeavam estes doentes, complexos e sofisticados equipamentos de muitas luzes e de garridas cores luzidias, donde saiam madeixas de tubos acrílicos, nos quais, através da sua cor translúcida se poderia ver, que neles corria a seiva vermelha que os arreigava à vida e o soro incolor que os nutria. A sua permanente e estática posição, não lhes permitia ver os verdes gráficos, na forma de dentes de serra, que em contraste com o fundo de um negro de azeviche, cadenciadamente corriam no ecrã que estava por detrás da sua cabeceira. Apenas sabiam que estes existiam por detrás da sua cabeça, pelo característico e incessante som matraqueado do “tick” “tick”. Som este, que acabava por ser o barómetro com que mediam a sua esperança de vida, pois quando este por algum motivo acelerava o seu ritmo de corrida, poderíamos ver nas suas órbitas o medo de terem chegado ao fim das suas vidas.

Porque neste mundo onde o cheiro a éter e a outros anestésicos pestilenta permanentemente o ar, conferindo-lhe por isso uma atmosfera muito própria, peculiar e diferente de qualquer outro lugar conhecido, e também porque neste lugar tudo o que o envolve e o rodeia é de cor branca, tudo o que simboliza as cores da vida e as atenções de quem é estimado e querido, atingem dimensões de apreço inimagináveis. Até mesmo o valor que é atribuído a pequena coisas, como os nossos objectos pessoais, que tanto nos identificam como nos fazem recordar momentos muito nossos, é completamente surpreendente e de comparação desmedida. Neste mundo branco, tudo tem uma outra importância e tudo tem um outro valor. Por este facto, só as pessoas que passaram por esta antecâmara do inferno, poderão melhor compreender a história dos dois homens gravemente doentes, que aqui se vai narrar.

Os cuidados intensivos do já referido hospital, antecâmara da vida ou antecâmara da morte, onde jaziam os dois homens gravemente doentes, era iluminada por uma torrente de luz solar, que jorrava de uma pequena e alta janela que dava para o mundo. Junto a esta, estava a cama de um homem que em tempos havia sido marinheiro e que presentemente aguardava um dador compatível para um transplante cardíaco, que há muito aguardava e tanto ele ansiava. Este marinheiro fundeado naquela cama já há algum tempo, por razões que se prendiam às escaras que cobriam todo o seu corpo, fruto do muito tempo ali ancorado e acamado, acabara de obter do médico chefe, a permissão de se sentar na cama durante pouco mais do que uma hora por dia e em todas as tardes. O outro doente, antes pelo contrário, apesar das dores insuportáveis que sofria, devido à sua permanente imobilidade, tinha que passar todo o seu tempo deitado de barriga para cima, sem se poder mover ou mexer.

Assim, devido às feridas que cobriam todo o seu corpo, todas as tardes, o homem cuja cama ficava perto da janela, era colocado e aconchegado na posição de sentado. E desde o primeiro dia que lhe atribuíram esse privilégio, ele passou a relatar o que via para além daquela janela e as tardes para ele passaram a ser por isso muito mais agradáveis do que antes. Os dias indiscutivelmente muito mais felizes para ele, era quando via os beirados a gotejar, fartos de chuva ou do cacimbo. Geralmente repetia até à exaustão que aquele era um bom dia, pois se Deus quisesse poderia proporcionar muitos dadores e ele teria o seu novo coração. Outras vezes, vinha-lhe ao cérebro as repugnâncias e os preconceitos e por isso em voz alta comentava de uma forma séria e apreensiva: e se me põem um coração de um efeminado, dum preto ou o de um marginal e eu tomo os seus hábitos, jeitos e manias. A sorte grande era se o dador tivesse apenas dezoito anos, voltaria a correr o mundo e não havia mulher que me fugisse. Este era na verdade o seu tema preferido das longas noites que passava de olhos abertos. Não se cansava de idealizar o seu futuro dador, como o tipo de mulheres que iria conquistar com o seu novo coração.

No entanto, nos dias luminosos e solarengos, o tema do velho marinheiro era outro, pois passava o tempo a descrever o que havia para lá daquela pequena janela. Segundo a sua viva e colorida descrição, aquela janela dava para um florido e arborizado jardim, onde não muito longe daquela janela havia um lago com peixes, patos e cisnes. Era um jardim segundo a sua descrição muito limpo, de arbustos artisticamente aparados e de relva muito cuidada. No lago desse bonito jardim, era costume as crianças atirarem pão tanto aos peixes, como aos patos e aos pardais. Deveria ser um lago muito grande, pois ele relatava como as crianças colocavam na água os seus barcos de brinquedo e como estes velejavam rápido até se perderem de vista. Nesse jardim, as sombras do arvoredo eram muito convidativas ao namoro e ao romance. Muitos casais de jovens namorados passeavam pelas veredas de mãos dadas trocando promessas de amor eterno. Outros havia mais terrenos no amor, que escolhiam os escuros recantos para se entregarem e se perderem. A rapaziada que ainda usava calções, adorava aqueles seus vastos relvados onde zaragateavam e jogavam intermináveis peladinhas. Por trás das frondosas e altas árvores, avistavam-se as silhuetas dos prédios e das moradias de boa arquitectura e de boa construção. Até uma praça com estátua em pedra lavrada havia no seu centro, a qual também se avistava daquela janela do hospital.

O doente condenado à total imobilização, deitado ouvia aquelas descrições com um sentimento de raiva e de inveja mal contida. A pormenorizada descrição da vida quotidiana que passava no jardim e na movimentada cidade, atormentava-o de forma inaudita e quase doentia. O doente que tinha o privilégio de se sentar na cama por uma hora em cada dia, não se cansava de descrever tudo quanto para além daquela janela ele via, apreciando desse modo todos os minutos desse privilégio.

Até mesmo um dia, o homem que não se podia levantar, ouviu a voz desesperada do seu companheiro de infortúnio que assistiu ao episódio de uma criança que caiu ao lago. Felizmente, foi salva por um corajoso marinheiro que ali passava e que se atirou de imediato ao lago. Agarrou a criança pelos cabelos e puxou-a até si. Com o braço esquerdo a rodear a cabeça da criança, nadou com o braço direito até à sua margem. Toda a gente suspirou de alivio e o seu companheiro que fora marinheiro também.

Quando os dias eram quentes e suados, o seu companheiro de janela descrevia com volúpia os esbeltos e torneados corpos das garotas cujos seus trajes muito minis mal os conseguiam cobrir. Ele não se cansava de descrever tanto os seus encantos e como os seus curtos e belos vestidos que mal escondiam as roliças e sensuais formas de mulher, atenazando assim ainda mais o sofrimento do seu companheiro de enfermaria e de inércia.

Eram tão coloridas e vivas as descrições que o seu companheiro de enfermaria fazia, que ele apesar de inerte, e na posição de sempre, quase poderia ver o que estava acontecer naquele movimentado e frondoso jardim.

Pouco a pouco a inveja invadiu e instalou-se de forma definitiva no seu coração. Ocorreu-lhe mesmo pensamentos pecaminosos e censuráveis. Era para ele injusto, que o homem que ficava perto da janela tivesse a sorte e o privilégio de ser o único a ver e a sentir prazer no que estava acontecer no exterior àquele mundo branco. Ele também gostaria de ter a oportunidade de se deleitar com aquela bela e magnífica paisagem de corpos sensuais, gaiatos e roliços. Por educação e por pudor, tentava não pensar nas ideias satânicas e luciferianas que povoavam os seus mais recônditos pensamentos. Quanto mais ele tentava não pensar nessas pecaminosas ideias, mais elas o atormentavam e o invadiam. Ele queria mudar de lugar. Ele faria até qualquer coisa para também ficar à janela e poder ver o que o seu companheiro através dela via.

Numa noite, enquanto olhava para o teto a recordar as sombras do seu passado, o marinheiro subitamente acordou tossindo e sufocando ao mesmo tempo, que o “tick” “tick” deixava de ser um som compassado para ser quase um som gritante contínuo. Ele impavidamente viu como o seu companheiro com as mãos tacteava o vazio na procura desesperada da “pera”, que faria a enfermeira vir correndo em seu auxilio. De súbito, os seu olhos, que já tinham visto muitos oceanos, esbugalharam-se e reviraram-se. O homem deitado observava a agonia do seu companheiro sem se mover e sem um grito ou um gesto no seu pensamento fazer. Mesmo quando o som da respiração do velho marinheiro parou e o “tick” “tick” se transformou num contínuo e ensurdecedor ruído, ele nada fez. De súbito a enfermeira entrou de rompão na enfermaria e encontrou o homem que fora marinheiro já sem vida. Puxou de imediato as cortinas que estavam enroladas no lado do homem que estava condenado a não se mexer, as quais não o impediram de ver as silhuetas de muitos médicos a entrar e a sair daquela sala. Por fim, levaram a cama com o corpo inerte, para pouco depois esta regressar já vazia, como se nunca alguma vez alguém nela estivesse deitado.

Assim que lhe pareceu adequado e oportuno, o homem condenado a estar sempre deitado perguntou à enfermeira chefe se podia passar para a cama junto à janela, com a desculpa da claridade que dela brotava. O pedido para sua hilaridade e satisfação foi de imediato por ela aceite. Deitaram-no e aconchegaram-no sob as cobertas dessa cama que havia sido o leito do seu companheiro de infortúnio e de imediato este foi invadido por uma sensação de conforto, de satisfação e de bem estar. Logo que o pessoal de enfermagem saiu daquela sala, ele apoiou-se com dificuldade sobre um cotovelo e olhou pela primeira vez para fora da janela e surpreendentemente viu apenas um alto muro que cobria toda e qualquer visão.

Em suma, a nossa vida foi, é, e sempre será aquilo que nós queremos que ela seja. Deveremos por isso valorizar as pessoas que fazem o possível para tornar a sua vida muito melhor, pois elas conseguem com esse gesto ser muito mais felizes do que aqueles que o não fazem.

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