Num fim de tarde, quando o grande disco solar pachorrentamente se escondia para lá da linha do horizonte, dando lugar tanto a um céu aureolado duma luminosidade e florescência alaranjada, como a um estriado algodão purpura, que dava ao ocaso um crepúsculo de rara beleza, e ao bosque a escuridão pardacenta que abriga os segredos e os mistérios de quem lá o habita. Empoleirado num ramo de uma das mais altas anciãs daquele bosque, habitat de muita e fervilhante vida, um pardal meio oculto pela folhagem outonal, furtivamente espiava sem cessar o voo da grande águia real, que habitava no branco penhasco no cimo da montanha que era visível daquele denso e arborizado bosque.
Nas alturas, todos os dias e há mesma hora, a grande e majestosa ave pairava sobre aquela grande mancha arborizada, quase que parada, exibindo desse modo, tanto a sua silhueta em toda a sua magnificência e extensão, como a performance, a elegância, e a exuberância do seu voo.
A sua escura e graciosa silhueta, contrastava com aquele luminoso alaranjado céu, o que fazia com que os olhos do seu pequeno fiel e dedicado fã se arregalassem de sonho, de grandeza e de fantasia. Para ele, aquele voo da rainha dos ares era de facto soberbo, magnífico e perfeito. Qualquer coisa de sublime e de majestoso muito para além do que poderia ser imaginável, pelo que o pequeno pardal se enchia de espanto, de admiração e de contentamento. Nunca por essa razão se cansava de admirar as proezas daquele magnífico voo planado. Como ele gostaria de voar com aquela exuberância e com aquela perfeição.
Ele daria tudo para poder voar com aquela magnificência e com aquele esplendor, mas ele não sabia como o fazer, pois tudo já tentara sem qualquer triunfo ou qualquer sucesso. Mas isso, não o impedia de sonhar acordado o seu desejo de um dia vir a ser forte para poder voar tão alto e tão distante como a aquela rainha dos ares. Mas, por mais que o tentasse, nunca conseguia voar assim tão alto e tão longe como ela o fazia, tanto por medo, como por cobardia e desconhecimento.
Todavia, todos os dias àquela mesma hora, o pardal não se cansava, dia após dia de a seguir por entre os ramos entrelaçados daquele imenso arvoredo. Sempre escondido e oculto com as folhas tingidas com a cor da morte, por forma a não ser nunca por ela denotado e visto. De ramo em ramo, e sempre camuflado com aquela folhagem que o avisa da proximidade dos gélidos e agrestes dias de inverno, ele procurava sempre o melhor ângulo de visão, para que desse modo, melhor pudesse vislumbrar tamanha graciosidade, beleza e força.
Num certo entardecer, estava o pardal a voar em curtos voos por entre os ramos do denso e escuro bosque, clandestinamente espiando com o seu característico fervor e denotada atenção o seu ídolo de sempre, quando de repente uma folhagem mais densa e luxuriante, salpicada aqui e ali por tons de um forte amarelo, escuros ocres e velhos vermelhos, o impediu por momentos de seguir o voo da águia. Quando saiu dessa densa mancha de vegetação, já não viu a razão de toda a sua veneração e admiração. Olhou para todas as direcções aflito, mas, a grande águia tinha desaparecido da sua visão. Voou desesperado acima das copas das árvores a fim da procurar e de reencontrar a sua grande rainha dos ares, mas, o fracasso era ameaçador.
A silhueta da águia havia desaparecido daqueles brilhantes céus laranjas. Ele por mais que a procurasse, não a conseguia encontrar em nenhum lado. No entanto, sem baixar as suas pequenas asas, e com a sua habitual teimosia, todos os recantos vasculhou com o seu atento e perscrutador olhar. Como não a encontrava, chegou mesmo a perguntar a si próprio: a onde é que ela se teria metido? Voou rápido por cima das copas, um pouco desajeitadamente e atabalhoadamente na busca e na perseguição do seu ídolo que lhe havia de repente desaparecido e escapado.
Quando este pequeno pássaro desnorteado e desesperado por tamanha perda, mudou bruscamente de rumo e de direcção, para assim melhor escrutinar o horizonte, a fim de encontrar a grande águia, este teve o maior susto da sua vida, pois sem o esperar e repentinamente, na sua frente, com toda a sua grandiosidade e fogosidade, ele se deparou com a gigantesca e majestosa águia real. Tentou a todo o custo conter e até mesmo inverter a trajectória do seu voo, mas pelo ímpeto e o impulso que nele lhe tinha incutido, foi-lhe completamente impossível, tanto de corrigir o seu rumo, como o de diminuir a energia que lhe havia conferido, pelo que este pequeno espião voador, irremediavelmente acabou por chocar com alguma violência, contra o grande peito de sua majestade, a grande águia real.
Com o forte e brutal embate, o pequeno pássaro caiu desnorteado no chão, que por sorte lhe amorteceu a queda, graças ao tapete de apodrecidos sedimentos de muitas eras, que há séculos o cobria. O pobre pássaro perdeu por alguns momentos os seus sentidos e o norte do que lhe havia acontecido. Quando voltou a si, ainda muito atordoado, abriu os seus pequenos olhos, para de imediato os esbugalhar com o espanto e o terror da visão fantasmagórica que aquela gigantesca e imensa ave lhe havia causado. Com o seu agudo olhar inquisidor, de pé e à sua frente, ela o observava fixamente, com grande acuidade e muita atenção.
Aquele vivo, aterrador e forte olhar, fez com que este sentisse a sua coragem rala e quase desaparecida do seu ser, ao mesmo tempo, que um enorme calafrio lhe percorreu todo o seu pequeno corpo. As suas asas se arrepiaram, ficando por momentos, hirtas e petrificadas. Olhou assustado e receoso aquela gigantesca extremidade córnea de um forte amarelo, que formava o curvilíneo bico daquela águia real e fechou os olhos numa murmurada prece, esperando o pior. Por sua vez a águia, continuou inerte e estática, contemplando apenas na sua mumificação e quietude, o deplorável estado daquele tiritante e tremente despenado pardalito.
Na sua habitual e característica expressão séria e aguda, a águia perguntou-lhe:
«Porque me persegues e me vigias, pardal?»
Muito a medo e timidamente o pardal titubeou algumas tremidas palavras soltas:
«Gostava de ser uma águia como tu... bela... inteligente e ... forte!»
Como a águia se mantinha em silêncio, este encheu-se com alguma réstia de coragem e com alguma determinação continuou a responder àquela gigante e senhora dos ares:
«Mas... o meu voo é muito fraco e baixo! As minhas asas são muito pequenas e curtas! E a minha vista não é muito profunda. Vivo com muita tristeza por não poder conseguir ultrapassar as minhas fronteiras, nem tão pouco os meus limites. Por isso, te sigo com o meu olhar, para que desse modo, melhor possa compreender como o fazes, como também para melhor poder sonhar com o dia em que serei como tu, uma águia. Quando esse dia chegar, voarei muito alto, e lá no cimo, pairarei com as minhas asas bem abertas ao sabor das correntes de ar. Assim estás a ver...»
e estica as suas pequenas e mal tratadas asas, para melhor exemplificar o voo que iria um dia fazer nas alturas daqueles céus laranjas.
«voarei nas grandes alturas enormes distâncias, que nos dão o poder de sermos completamente soltos e livres. No velho bosque, todos me olharão com respeito. Todos me farão vénias à minha passagem, e em todos os meus conterrâneos eu serei sempre o seu preferido tema de conversa...»
A águia surpresa por tanta e desmedida ambição, que não hesitou em interromper aquele sonho falado, perguntando quase de rompão ao pequenote, como ele se sentiria se chegasse à conclusão, que as suas pequenas asas o impediam de desfrutar e de usufruir de tudo o que acabava de descrever e sonhar. Ao que o pardalito sem aparente hesitação lhe respondeu com alguma euforia mal contida, que ele era depositário de muita fé e de muita crença, e que algo no seu interior mais forte do que ele, lhe havia confidenciado que um dia, nem que fosse em uma outra vida, ele seria uma ágil e forte águia real. Mas que de momento, as suas asas o impediam de concretizar aquele sonho acalentado já há muito. Lançou de seguida ao vento, uma metralha de descontentamentos, maldições e infortúnios por ter nascido com aquele franzino e débil corpo. Mal disse até, o dia em que nasceu, e chegou mesmo a desejar juntar-se rapidamente à eterna luz do Oriente, para que renascesse sem demora com o corpo de uma forte e ágil águia real. De súbito caiu em si, e respondeu com algum pesar e uma sentida tristeza: que sentiria muita infelicidade e muita amargura se tal viesse a acontecer. Naquele momento, já uma profunda tristeza lhe invadia o seu pequeno coração por ser desajeitado, ter medo das alturas e não conseguir voar muito alto.
Disse ele ainda na forma de justificação e de confissão, que tinha uma grande vontade de ultrapassar todas as vicissitudes e todas as contrariedades que impedissem a realização do seu sonho. Contudo, não se cansava de maldizer o dia em que tinha visto a luz pela primeira vez. Chegou mesmo a dizer que não valeria a pena viver se nunca conseguisse realizar o seu sonho de voar acima das nuvens, sentir o frio das alturas e a sua vista se perder no infinito do horizonte. Esse sim, seria o delicioso sentimento que lhe transmitiria a dignidade e o sentido da liberdade...
O pardal suspirou com profundidade, ao mesmo tempo que olhando com tristeza para o chão... uma lágrima brotou dos seus olhos a confirmar a tristeza que habitava em todo o seu ser e disse com voz arrastada:
«Todos os dias, faça chuva ou sol, frio ou calor, tanto ao amanhecer como ao entardecer, eu estou de sentinela na mais alta árvore deste bosque para, tanto te ver voar como caçar. Pois, eu quero contigo aprender todos os segredos da arte de voar e de caçar. Sem dúvida, tu és para mim única, tanto pela tua beleza, como pela tua inteligência e pela tua força».
A águia, acusando um pouco de vaidade questiona o pardal com alguma curiosidade:
« Se passas todo o dia a observar-me. Então quando é que tu voas? Pardal!»
O Pardal em modos de confissão e quase num ténue sussurro confidenciou:
«A grande verdade é que eu gostaria de voar como tu voas... Mas as tuas alturas são demasiadas para mim. Eu tenho muito medo, e creio não ter as necessárias forças para suportar os fortes ventos que se fazem lá em cima, e tanto mais, que não sei voar com a graça e com a agilidade com que tu harmoniosamente lá no alto planas...»
A águia ficou muito comovida e com muita pena daquele infeliz pardalito que talvez por isso, esta tivesse sentido uma forte necessidade em o consolar dizendo-lhe com esse fim:
«bem sabes que a natureza de cada um de nós é muito diferente...»
«Bem sei! Bem sei! Maldito o dia em que nasci.»
E com esta curta exclamação, o pardal voltou ao seu costumeiro inconformismo de sempre, pelo que a águia sentiu a necessidade ainda de lhe transmitir algumas palavras de apoio, de conforto e de alguma esperança. Ao mesmo tempo, que no seu interior algo de muito grande ia crescendo. A águia apesar da sua lucidez e sagacidade, foi incapaz de contrariar tal sentimento e por isso, com uma voz modelada pelo sentimento lhe disse:
«Não estou com isto a querer dizer, que nunca poderás voar como uma águia. Antes pelo contrário. Se fores firme e teimoso no teu propósito, e deixares que a águia que vive no teu espírito se solte e se liberte, então ela dar-te-á a possibilidade de vires a voar tão alto como eu. Acredita no que te digo! O teu espírito poderá ser o de uma águia.»
Apesar das harmoniosas e confortáveis palavras da águia, o pardal continuava a ter no seu espírito o desânimo e a descrença como companheiros, pelo que a águia lhe disse ainda antes de se preparar para levantar voo.
«apenas mais um pequeno conselho, meu amigo: tu nunca poderás voar como uma águia, se não treinares intensamente e incansavelmente todos os dias. O treino é o que te dará o conhecimento, o fortalecimento e a compreensão para que possas na realidade concretizar os teus sonhos. Se não pões em prática a tua vontade, o teu sonho nunca passará dum sonho. Esta é a nua realidade para aqueles que não temem, tanto quebrar os limites, como as crenças, porque conhecem o que na realidade deve ser conhecido e feito. Um pardal, poderá sempre transformar-se numa águia, se esta for sua vontade. Confia em ti e voa o mais alto que poderes. Entrega as tuas asas aos ventos norte, e aprende com eles o necessário equilíbrio para poderes planar longe. Tudo é possível para aqueles que compreendem que são seres livres e inteligentes, basta apenas em acreditarem nas suas capacidades e potencialidades, basta apenas confiarem nas suas potencialidades em aprenderem a serem felizes!».
O tempo passou e o inverno chegou. O pardal mal deu conta de quanto tempo havia passado desde o dia em que a águia lhe deu os nobres e argutos conselhos. Desde esse momento, o tempo não lhe chegava para treinar a arte e a técnica tanto do voo como o da caça. Ainda não estava exímio nessas artes mas tinha evoluído muito e era mais seguro de si.
No velho bosque, os gigantes carvalhos e os grandes castanheiros despiram-se para receber as grandes chuvas e as densas neves, que os transformaram em frios e húmidos troncos brancos, e às restantes árvores em fantasmagóricos espectros, donde sobressaiam esqueléticos e retorcidos dedos apontados tanto para a luminosidade do alto, como para o esbranquiçado pico da montanha, como que a assinalarem naquele gesto, que algo de grande e de divino ali naquele momento se passava.
A silhueta da águia real, sempre pontual nos alaranjados entardeceres, já alguns dias tinha deixado de aparecer naqueles brumosos e esbranquiçados céus, pelo que o pardal utilizava todo o seu tempo livre num intenso e dedicado treino, tanto de voo como de caça.
O uivo e o silvar do vento, sempre brutal e agressivo para o velho bosque, também havia já algum tempo cessado e desaparecido. O único som distinto e cristalino naquele bosque de fantasmas, era o chilrear das perdizes, das toutinegras, dos tentilhões, e de muitas outras aves, que cantavam ao desafio a sua hilariante alegria, por a neve ter cessado de cair farta e abundante.
O manifestante e contangiante chilreio de contentamento e de estonteante alegria das aves habitantes daquele bosque entapetado de branco, apesar de forte e de intenso, dava-nos a sensação que este ainda ganhava mais força e mais vida, à medida que apurávamos o nosso ouvido e a nossa atenção se esmerava naquelas maravilhosas melodias. Os sons que invadiam aquele bosque coberto por um farto manto branco, eram na generalidade cristalinos, límpidos e claros, embora, alguns houvesse, indecifráveis e até imprecisos. No entanto, um havia, que se destacava na soberania de todos eles. Era um som forte e matraqueado, que ressoava por entre os velhos e despidos troncos brancos, numa cadenciada, repetida e chorada melodia.
Um "kau, kau, kau " pungente e lúgubre ecoava por todo aquele bosque de fantasmas, denunciando a todos os que lá viviam, o grande drama que a águia real vivia. Pois esta com o passar dos anos, tinha ficado com o seu adunco bico enfraquecido e gasto, as suas garras tinham crescido desmesuradamente, tortas e enfraquecidas, e as suas penas se tornaram velhas e pesadas. Estas excrescências e contrariedades, eram os sinais inequívocos da sua já muita idade, pois estes dificultavam-lhe gravemente, tanto a performance do seu voo, como a sua eficácia e eficiência na caça. Em face destas vicissitudes da vida e partidas do tempo, a quem já não é muito novo, a sua sobrevivência estava por isso largamente ameaçava e seriamente condenada ao malogro, se algo ela urgentemente não fizesse para contrariar os seus visíveis sinais de velhice e de decadência.
Aquela majestosa águia real já tinha defrontado e superado quarenta invernias e fazia preces para poder vir a defrontar outras tantas. Mas, de momento, ela teria de tomar a grande decisão da sua vida. Isto é, ela teria de optar por viver ou por morrer.
O seu forte espírito de sobrevivência falou mais alto e mais forte, por isso, no alto do seu penhasco ela tomou a decisão de iniciar o ritual do renascimento, o qual, iria durar muitos e longos dias, aproximadamente uns cento e cinquenta. Derivado dessa corajosa e pronta decisão, os habitantes daquele bosque puderam ouvir o cadenciado e oco batuque, que dolentemente ressoava por todos os recantos do bosque. Este, era o som provocado pelo seu velho bico, quando esta sucessivamente e com fúria o batia nas pedras, para desse modo o arrancar e o soltar. Logo que esta operação esteja concretizada e que um outro novo e forte bico lhe nasça, ela iniciará a operação de arrancar as garras, uma por uma. Por sua vez, quando lhe nascerem as novas e poderosas garras afiadas, ela com estas e juntamente com o seu poderoso bico, apesar do intenso frio que na alta montanha se iria fazer, ela iria arrancar as velhas e sujas penas do seu corpo, uma a uma, a fim de que outras novas lhe venham a nascer. Com esta dolorosa e sofrida metamorfose, ela ficará restaurada, rejuvenescida e renascida, pronta para enfrentar todas as vicissitudes e contrariedades da sua nova vida.
Muitos dias depois, precisamente quando a neve e a chuva fizeram uma trégua e o nevoeiro transformou a visão do bosque em esparsas e raras imagens visíveis, redesenhando dessa forma a paisagem em cada momento, uma vez que apenas se distinguiam aqui e ali uma mancha um pouco mais escura, à qual por intuição e indução atribuíamos ser a silhueta de uma árvore mais copada ou mais robusta, ouviu-se proveniente das alturas um estridente, forte e agudo grito, que anunciou a boa nova aos habitantes daquele ainda gelado bosque, e em particular ao pardal, que apesar da esbranquiçada bruma os impedir de admirar a grande e exuberante silhueta da bela e rejuvenescida águia real, que lá no alto, voltava a fazer piruetas e arrojadas acrobacias aéreas, ele a imaginava esbelta e majestosa no seu pungente voo.
Quando uma clareira se fez no denso nevoeiro, e o pardal pode ver para seu gáudio, a sua velha a amiga em toda a sua magnificência e majestade ele ficou enternecido e deleitado pelo o que viu. Talvez fosse mera impressão sua, mas ele achou que a metamorfose que nela havia sido operada, lhe tinha conferido maior agilidade e até parecia que esta tinha um voo mais preciso e mais elegante do que nunca.
Naquele voo livre e solto, a velha senhora dos ares anunciava desse modo a todos, a sua renovada esperança de poder vir a viver mais quarenta invernos sobre aqueles céus esbranquiçados e de entardeceres alaranjados.
Que bom que não seria, se todos os seres tivessem a possibilidade de conquistar pelos seus próprios meios, mesmo que com grandes sacrifícios e dificuldades, melhores anos de vida, e até mesmo, poderem conquistar a sua juventude já há muito tempo saudosa e perdida. Como seria magnífico, perfeito e belo poderem fazer o mesmo que águia real o fez com coragem e determinação, para que desse modo pudessem vir a viver tanto melhores dias como a terem melhor qualidade de vida.
O seu dedicado e fiel fã, tal como os outros, através da clareira que se fez no denso nevoeiro que havia invadido o bosque, também ele pode ver com deslumbramento e contentamento nos brumosos céus, a sua querida escura silhueta de liberdade e de tenacidade. Mas desta vez, ele já a não seguiu furtivamente de ramo em ramo como até aí o havia feito. Não! Desta vez sem resto de medo, com determinação e com invulgar coragem, voou acima dos espigados e nus ramos das árvores do bosque, e lá no alto, com as asas bem abertas, pairou ao sabor dos ainda gélidos e agrestes ventos. Nesse pioneiro voo, atingiu alturas que para ele, até ali, eram inimagináveis e inconcebidas. Maravilhado e estarrecido com o que via. Assim, pela primeira vez ele pode reparar e apreciar, como ali do alto a visão da paisagem branca era desoladora e inóspita, como também pode reparar como ali do alto tudo era tão pequeno, tudo era tão efémero e sem importância de maior.
A partir desse dia o pardal passou a voar cada vez mais alto e mais distante, alargando desmesuradamente desse modo o seu conhecimento e a opinião que tinha das coisas da vida. Embora não fosse comparável com as alturas e as distâncias que a sua amiga águia real praticava, eram no entanto para ele alturas e distâncias surpreendentes e colossais. Sempre solitário nas suas viagens de busca e de prospecção, não se cansava no entanto de questionar tudo o que era para ele novo e desconhecido.
Naquele bosque, havia um velho e robusto carvalho com uma aparência gigantesca, rude e disforme, como se este na sua vida tivesse despendido muita força e muita energia. Cada tempestade para um carvalho é mais um desafio a ser vencido e não uma verdadeira ameaça, uma vez, que numa grande tempestade muitas árvores são arrancadas pela raiz, mas o carvalho permanece firme e sólido no local onde nasceu e pela primeira vez viu a luz do dia. Quantos mais temporais e tempestades o carvalho venha a enfrentar, mais forte e maior este fica. E com estas intempéries as suas raízes se aprofundam e afundam ainda mais nas entranhas da terra e o seu tronco se alarga e mais forte e robusto fica, sendo por isso, completamente impossível uma qualquer tempestade ou temporal o arrancar do solo ou o derrubar. Pois nesse forte e grande carvalho, certo dia, quando o sol se despedia tanto do bosque como da montanha e a lua lhes dava as suas boas vindas, uma grande assembleia de pardais nele se reuniu, afim de deliberarem a permanência no bando, ou não, do pardal de costumes heréticos e transviados.
O quoro daquela assembleia era composto por uma multidão, pois todos os imensos troncos e ramos daquele velho e forte carvalho estavam ocupados por pardais, que inquietos e desassossegados, chilreavam aos atropelos e ao desafio entre si. Quando um pardal já ancião tomou o lugar no centro daquela gigantesca assembleia, todos se calaram e emudeceram em sinal de profundo e sentido respeito. Num solene e majestoso gesto, ele deu de imediato inicio àquela assembleia, e por isso, deu de imediato a palavra ao orador, para que este anunciasse analiticamente àquela assembleia, as razões que levaram a esta a se constituir e a se reunir naquele grande e frondoso velho carvalho.
O orador, num local bem visível e acima dos demais, de papo cheio, de harmonia com um ritual muito estudado, iniciou um discurso com esmerada eloquência e encenação teatral, que o pardal transviado violara todas as normas e regras de conduta de um pardal daquele bando. Deu como provas inequívocas da sua acusação, o facto de o pardal já não picar o solo com o seu bico na busca de sementes e outros restos do bosque, mas sim, que este se dedicava à caça numa técnica que se assemelhava em muito, às técnicas utilizadas pelos seus predadores.
Disse em tons estudadamente sombrios e sérios, que o pardal transviado tinha deixado de picar o solo na busca dos seus alimentos, para preferir caçar, tal como os seu inimigos o faziam, com uma técnica que consistia em depois de ter avistado a sua presa, efectuava um voo picado e desse modo, apanhava nas suas unhas em forma de garras, grandes insectos, gordas lagartas, fartas lesmas, robustos caracóis e até longas minhocas. Depois destas suculentas presas ficarem bem agarradas nas suas patas, ele as levava para um lugar seguro e ai gulosamente as devorava. Com este detalhado discurso, os mais novos começaram a sentir crescer água nos seus bicos, e por momentos pensaram que o pardal transviado talvez até fosse um exemplo a seguir, mas assim que olharam a carranca do pardal já de muita idade, ficaram assustados, e a medo reprimiram os seus repticianos apetites, e puseram a mascara conveniente ao solene momento.
E o mais grave, dizia eloquentemente e solenemente o orador, era que ele voava de forma absolutamente estranha e bizarra, num sinal claro de ter negado e desprezado todos os costumes dos seus iguais. Disse ainda o orador, que se sabia pelo departamento de inteligência dos pardais, que este aprofundava e estudava conhecimentos proibidos e pelo código de conduta do bando altamente condenatórios, pelo que, aquela assembleia deveria de exemplarmente, com firmeza e com dureza punir o infractor.
O ancião, com a calma e a paciência dos maiores e a gravidade da sua autoridade, deu de seguida a palavra às testemunhas abonatórias do pardal transviado. Só uma, timidamente e muito a medo se apresentou e lhe pediu com cortesia sussurrada a palavra. Todos chilrearam frases azedas de apupo e de descontentamento, sem que fossem mandados calar pelo pardal de muita idade. Muito a medo, a testemunha abonatória que aparentemente, quase parecia ser a alma gémea do pardal transviado. Iniciou o seu testemunho com titubeadas e soltas palavras. A assembleia continuava turbulenta e o pardal ancião nada fez para aquietar aquela barulhenta turba. Assim, no meio deste burburinho e desassossego, a testemunha confessou ser seu irmão e testemunhou de entre muitas coisas que sabia do passado deste, que o seu pai queria fazer dele a reprodução de si próprio. O mesmo queria o seu tio. A sua mãe pretendia fazer dele a imagem do seu ilustre e saudoso pai. A sua irmã considerava o seu marido como o exemplo perfeito, que o seu irmão deveria seguir. Como disse ainda também, que até ele próprio, por sua vez, queria que ele fosse como ele, um excelente tenor. E os seus professores também queriam que ele fosse a sua imagem... O de saltitar queria que ele saltitasse como um atleta; o professor de canto queria que ele fosse virtuoso na ciência dos sons; o professor de costumes queria que ele fosse exemplar e a referência dos seus... Cada um que com ele conviveu, queria que ele fosse senão o reflexo da sua própria imagem. E por essa razão, ele tinha seguido aquele confuso e solitário caminho. Segundo a sua opinião, com tanta exigência de quem o rodeava, este havia perdido a sua sanidade e tinha enlouquecido. E confidenciou de seguida quase num murmúrio sussurrado que ninguém o pode ouvir, que pelo menos assim, ele poderia ser ele mesmo.
De todo o discurso desta testemunha abonatória, a assembleia dele só reteve a confirmação, de que o perigoso pardal transviado, havia enlouquecido e perdido a sua sanidade mental. O veredicto final estava já inexoravelmente traçado com o resumo deste último testemunho. O pardal transviado foi considerado por aquela magna assembleia como um louco perigoso e por isso, foi condenado à expulsão do bando, como todo aquele, que se lhe dirigisse ou mantivesse relações amistosas para com este.
Quando a comissão constituída para anunciar ao pardal transviado a decisão da magna assembleia dos pardais, cumpriu a sua difícil e espinhosa missão, o pardal transviado ficou por momentos profundamente amargurado e muito triste com os seus. Com um suspiro pensou, que deveria tirar proveito das situações contrárias à sua vida, e tal como o carvalho que serviu para albergar a assembleia que o havia condenado, este deveria com esta vicissitude ficar mais forte e mais confiante em si próprio. Um pouco marcado, é certo, e por vezes até com a aparência desiludida e abatida, mas o seu interior seria sempre forte e com as raízes bem firmes e profundas na terra.
A vicissitude com que o pardal transviado se debateu, foi assim por este encarada com o exemplo do velho carvalho... e por isso, como um desabafo, num piar baixo ele disse: «É apenas só mais uma tempestade que me tornará mais forte e mais seguro de mim mesmo». Assim, este pensou de seguida, que o triste acontecimento não era assim tão grave, pois ele próprio já não se sentia um pardal, por isso, só tinha de que agradecer a estes a sua decisão, pois ajudaram-no a cortar os elos e as amarras que ainda o prendiam ao seu passado. Ele já não era um pardal, ele era uma águia, sentia a vida como uma águia e as águias vivem sós. Assim, como uma águia ele raciocinou e disse para si num baixo piar: « apesar de pairarem nuvens ameaçadoras nos céus, eu não devo nunca, dobrar as minhas asas, como não devo também fugir para o meu abrigo e nele me esconder. Mas sim, tal como a minha amiga águia real. Eu devo abrir largamente as minhas asas e planar para bem alto. Acima dos problemas que a vida me traz. Pois as águias quanto mais alto voam, mais tranquilos e mais brilhantes se tornam os céus». E assim no alto das copas, o pardal voou, voou e quando olhou para trás de si verificou, que a tempestade havia passado, uma vez que no seu espírito vivia agora a sensação de liberdade e nele também habitava a plena confiança em si próprio. E com este voo livre e solto ele encontrou novas forças e nova coragem para enfrentar o desconhecido e o misterioso que a vida nos reserva.
Numa certa escura e nublosa noite, em que o silêncio era do mais profundo, embora a noite já tivesse caído há muito, o sono teimava em não visitar o pardal, que no interior de um buraco que se situava num dos mais altos galhos do velho carvalho, e que nessas alturas lhe dava o abrigo, o conforto e o necessário aconchego à sua solidão, ele nesse isolado refúgio não parava de suspirar, transmitindo assim, tanto a sua grande tristeza e melancolia, como a sua enorme amargura e agastamento, que lhe invadia tanto o espírito como o coração.
A sua expulsão do bando, ainda era uma ferida que lhe ardia e lhe dilacerava vorazmente o seu soturno e mórbido espírito, razão porque negros pensamentos se espraiavam no seu espírito e as lúcidas ideias nele estavam ausentes ou fugidias. Em face deste desconsolo e sentimento de abandono, ele sentia uma grande necessidade de meditar e de reflectir sobre a sua nova condição de banido e de proscrito do bando que o viu nascer, razão porque ele no fundo até se sentia muito bem no meio daquele manto escuro, que para além de transformar a sua toca numa câmara de reflexão, conferia-lhe ainda, também, tanto o indispensável silêncio, como o hipnótico mistério, para que ele pudesse soltar as amarras do conhecimento e desse largas à sua fértil e criativa imaginação, sobre qual a estratégia de conduta que ele deveria daí em diante seguir.
A noite passou silenciosa e pachorrenta pelo velho bosque, até que os primeiros esteriados raios da manhã, alaranjaram os cumes da montanha e deram a tonalidade avermelhada às copas das mais altas árvores do bosque. Com o nascimento dessa romântica e sonhadora claridade, os costumeiros madrugadores cantaram ao desafio as graças por verem mais um dia nascer. Apesar do chilrear ser crescente e forte, o pardal mal deu conta do despertar da vida daquele pequeno efervescente microcosmos. Na sua escura câmara de reflexão, ele continuava em total êxtase e numa profunda meditação. Nesse estado febril, ele congeminava sucessivos cenários de atitudes e de conduta, que este deveria seguir em face da injusta e cruel expulsão do bando de que havia sido alvo.
Depois de uma noite de sonhos acordados e de imagens projectadas no vácuo, o pardal retirou dessa profunda meditação e reflexão duas conclusões: ou mudava radicalmente as aves que compunham o seu círculo social; ou mudaria ele a sua maneira e a forma de se relacionar com os seus iguais. A voz da sua consciência, depois de uma noite sofrida e acordada, era o reflexo da revolta e da raiva mal contida, tanto contra aquele ancião de maneiras e gestos autoritários e autocráticos, como contra aquele orador de teatrais e engenhosas falas mansas.
A sua conduta no futuro, só poderia ser a conduta que o conduzisse ao mais profundo desprezo para com os seus iguais, uma vez, que nunca se pode esperar laranjas de um pessegueiro, a menos que se queira ser masoquista e ter-se o sórdido gosto em sofrer. Mas, o pardal estava inabalável e firme na sua convicção de ultrapassar os limites que a natureza e o costume lhe impuseram. Ele achava até muito injusto, tanto os comentários e falatórios de que ele havia sido alvo, bem como cruel, a pena que lhe havia sido sancionada pela assembleia dos pardais. Em vez de o agraciarem, de o aplaudirem e até de o estimularem à vitória tanto sobre os desafios, como sobre os escolhos que a vida nos coloca passo a passo, antes pelo contrário, condenaram-no, tanto pela sua ousadia, como pela sua tenacidade em defrontar o desconhecido e o desejo de desvendar os mistérios que ainda se escondem do nosso conhecimento.
As negras nuvens da revolta e da rebelião que toldavam o espírito do pardal, faziam com que este achasse que os pêssegos até poderiam ser um dos frutos mais deliciosos e saborosos daquele bosque, mas que de modo algum substituíam o forte desejo que por vezes ele tinha de suculentas, sumarentas e gordas laranjas, tanto mais, que ele até sabia onde naquele vespeiro de vida havia laranjeiras carregadas com tais saborosos frutos. Com esta simples lógica, gradualmente, o orgulho e a altivez voltaram a inchar o seu espirito renovando-lhe a sua autoconfiança e o seu egocentrismo. Pois, ele estava inabalavelmente convicto, que o essencial e o mais importante era que ele sabia da existência de outras aves que lhe poderiam proporcionar tanto a indispensável companhia, como o conhecimento e os estímulos de que ele tanto necessitava.
Na verdade, por intuição, o pardal até sabia que esperar estímulos e atenção das outras aves que faziam parte do seu antigo bando, depois tanto do que por elas havia sido dito, como por elas havia sido praticado, era mera utopia e vontade de querer sofrer. Por isso, esperar que o bando o aceitasse de novo, não seria de forma alguma uma decisão ponderada e razoável, uma vez, que o haviam considerado como um perigoso louco. Logo, por esse facto, o bando nada lhe tinha para oferecer. Em consequência deste rancoroso pensamento, ele com um alto piar concluiu, que se os pardais o tivessem querido aceitar como ele na realidade era, ele teria ficado encantado e teria gostado muito deles. Mas, pelo contrário, eles tanto o quiseram desprezar, como quiseram desvalorizar as suas inéditas qualidades. Deste modo, o problema só poderia ser apenas deles, uma vez que ele há muito, já havia aprendido que somente ele próprio poderia se desvalorizar e se desqualificar, se essa fosse a sua vontade e se esse fosse o seu real desejo.
Apesar do sonho ser muitas das vezes uma armadilha da vida real. O pardal apesar de uma noite acordada estava lúcido nas suas idéias e por isso com frieza pensou, que se o bando havia deliberado aquela injusta sentença a responsabilidade só poderia ser deles, uma vez, que somente os lobos caem nas armadilhas para os lobos. Ele jamais pensou em permitir, que o espinho da humilhação ou da desonra que cruelmente lhe cravaram o afectasse com profundidade. Esse espinho, no seu entender, apenas lhe causou uma picada acompanhada de uma passageira aguda dor. Ele era uma nobre e majestosa águia porque no seu interior vive o espírito de uma majestosa e nobre águia e não a demência e a loucura que os pardais anciãos o acusam e o querem fazer crer.
O pardal em termos de conclusão da sua reflexão e da sua prolongada meditação, num sonoro piar ao vento concluiu: como poderia a decisão do bando o afectar se ele nunca poderia ser melhor só pelo facto de ser elogiado, como nunca poderia ficar pior pelo facto de o criticarem ou de o combaterem. Logo, o sucedido seria apenas um triste percalço na sua vida e decidiu que o mais importante era permanecer, discreto continuando a ser ele mesmo, na constante e permanente procura do seu aprimoramento íntimo e na busca do conhecimento mágico e misterioso que tornasse a vida mais segura e mais bela.
O Pardal ao entardecer desse mesmo dia, voou muito para além dos limites do velho bosque, até um já não muito novo campanário, de linhas esguias e de cúpula piramidal, que ele havia descoberto em uma das suas últimas expedições de prospecção e de descobrimento. Nessa esguia e alta torre, vivia uma velha e ao que dizem sábia coruja, que tinha o dom de ver no escuro as questões mais profundas e mais obscuras da vida. Consta-se, que onde as aves comuns nada percebiam e nada entendiam da vida, esta filósofa coruja tudo via e tudo compreendia. Ela era o expoente máximo do saber filosófico, da pura teoria, da abstracta ciência, e neste sentido ela era uma autoridade incontestável na matéria em questão.
O pardal sem rodeios, contou à douta coruja todos os acontecimentos que ocorreram no velho bosque e em que ele fora um dos principais protagonistas de cena. A coruja com o seu grande olhar sempre muito astuto e atento despia o espírito do pardal ao mesmo tempo que com um bisturi retalhava o problema que tanto o afligia e que tanto o preocupava. A noite já era adulta quando o pardal terminou o seu relato dos acontecimentos por ele vividos. Por fim, ela laconicamente e pausadamente respondeu, que as grandes transformações somente aconteciam quando os espíritos passavam pela prova do fogo e todos os espíritos que não passassem por esta prova ficariam a vida inteira sempre iguais e sempre imutáveis rudes como pedras informes. Pois as aves que o haviam condenado eram duma dureza assombrosa porque nunca haviam conhecido a prova do fogo. Razão porque elas não tinham percebido nem tão pouco compreendido o alcance da busca e da procura dos novos conhecimentos que o pardal havia iniciado. Essas aves tinham o seu próprio jeito de ser e supunham até que esse jeito de ser era o melhor e o único.
Assim a coruja fez saber ao pardal que este havia conhecido o tenebroso e temível fogo que tudo consome e que tudo purifica. O fogo é a prova máxima de que qualquer espírito pode a qualquer momento estar sujeito, pelos acasos do destino, pois as leis da vida podem em qualquer momento nos lançar esta prova numa forma de que nunca poderíamos suspeitar ou imaginar como um desafio para nos testar tanto a nossa determinação e coragem como para temperar o nosso carácter e rejuvenescer a tenacidade e perseverança. O fogo é dor e é sofrimento e assume duas formas: o fogo pode ser um fogo exterior o qual pode ser a perda dum amor, a perda de um ente muito querido, ficar doente, perder a actividade e ocupação habitual, ou ficar pobre e miserável; ou pode ser o fogo interior: o qual se traduz pelo pânico, pelo medo, pela ansiedade, pela depressão ou até mesmo por sofrimentos cujas causas ignoramos.
São aquelas pessoas que, por mais que o fogo esquente se recusam a mudar. Elas acham que não pode existir coisa mais maravilhosa do que o jeito delas serem. A sua presunção e o medo são a dura casca que não estoura. O destino delas é triste. Ficarão duras a vida inteira.
Nas alturas, todos os dias e há mesma hora, a grande e majestosa ave pairava sobre aquela grande mancha arborizada, quase que parada, exibindo desse modo, tanto a sua silhueta em toda a sua magnificência e extensão, como a performance, a elegância, e a exuberância do seu voo.
A sua escura e graciosa silhueta, contrastava com aquele luminoso alaranjado céu, o que fazia com que os olhos do seu pequeno fiel e dedicado fã se arregalassem de sonho, de grandeza e de fantasia. Para ele, aquele voo da rainha dos ares era de facto soberbo, magnífico e perfeito. Qualquer coisa de sublime e de majestoso muito para além do que poderia ser imaginável, pelo que o pequeno pardal se enchia de espanto, de admiração e de contentamento. Nunca por essa razão se cansava de admirar as proezas daquele magnífico voo planado. Como ele gostaria de voar com aquela exuberância e com aquela perfeição.
Ele daria tudo para poder voar com aquela magnificência e com aquele esplendor, mas ele não sabia como o fazer, pois tudo já tentara sem qualquer triunfo ou qualquer sucesso. Mas isso, não o impedia de sonhar acordado o seu desejo de um dia vir a ser forte para poder voar tão alto e tão distante como a aquela rainha dos ares. Mas, por mais que o tentasse, nunca conseguia voar assim tão alto e tão longe como ela o fazia, tanto por medo, como por cobardia e desconhecimento.
Todavia, todos os dias àquela mesma hora, o pardal não se cansava, dia após dia de a seguir por entre os ramos entrelaçados daquele imenso arvoredo. Sempre escondido e oculto com as folhas tingidas com a cor da morte, por forma a não ser nunca por ela denotado e visto. De ramo em ramo, e sempre camuflado com aquela folhagem que o avisa da proximidade dos gélidos e agrestes dias de inverno, ele procurava sempre o melhor ângulo de visão, para que desse modo, melhor pudesse vislumbrar tamanha graciosidade, beleza e força.
Num certo entardecer, estava o pardal a voar em curtos voos por entre os ramos do denso e escuro bosque, clandestinamente espiando com o seu característico fervor e denotada atenção o seu ídolo de sempre, quando de repente uma folhagem mais densa e luxuriante, salpicada aqui e ali por tons de um forte amarelo, escuros ocres e velhos vermelhos, o impediu por momentos de seguir o voo da águia. Quando saiu dessa densa mancha de vegetação, já não viu a razão de toda a sua veneração e admiração. Olhou para todas as direcções aflito, mas, a grande águia tinha desaparecido da sua visão. Voou desesperado acima das copas das árvores a fim da procurar e de reencontrar a sua grande rainha dos ares, mas, o fracasso era ameaçador.
A silhueta da águia havia desaparecido daqueles brilhantes céus laranjas. Ele por mais que a procurasse, não a conseguia encontrar em nenhum lado. No entanto, sem baixar as suas pequenas asas, e com a sua habitual teimosia, todos os recantos vasculhou com o seu atento e perscrutador olhar. Como não a encontrava, chegou mesmo a perguntar a si próprio: a onde é que ela se teria metido? Voou rápido por cima das copas, um pouco desajeitadamente e atabalhoadamente na busca e na perseguição do seu ídolo que lhe havia de repente desaparecido e escapado.
Quando este pequeno pássaro desnorteado e desesperado por tamanha perda, mudou bruscamente de rumo e de direcção, para assim melhor escrutinar o horizonte, a fim de encontrar a grande águia, este teve o maior susto da sua vida, pois sem o esperar e repentinamente, na sua frente, com toda a sua grandiosidade e fogosidade, ele se deparou com a gigantesca e majestosa águia real. Tentou a todo o custo conter e até mesmo inverter a trajectória do seu voo, mas pelo ímpeto e o impulso que nele lhe tinha incutido, foi-lhe completamente impossível, tanto de corrigir o seu rumo, como o de diminuir a energia que lhe havia conferido, pelo que este pequeno espião voador, irremediavelmente acabou por chocar com alguma violência, contra o grande peito de sua majestade, a grande águia real.
Com o forte e brutal embate, o pequeno pássaro caiu desnorteado no chão, que por sorte lhe amorteceu a queda, graças ao tapete de apodrecidos sedimentos de muitas eras, que há séculos o cobria. O pobre pássaro perdeu por alguns momentos os seus sentidos e o norte do que lhe havia acontecido. Quando voltou a si, ainda muito atordoado, abriu os seus pequenos olhos, para de imediato os esbugalhar com o espanto e o terror da visão fantasmagórica que aquela gigantesca e imensa ave lhe havia causado. Com o seu agudo olhar inquisidor, de pé e à sua frente, ela o observava fixamente, com grande acuidade e muita atenção.
Aquele vivo, aterrador e forte olhar, fez com que este sentisse a sua coragem rala e quase desaparecida do seu ser, ao mesmo tempo, que um enorme calafrio lhe percorreu todo o seu pequeno corpo. As suas asas se arrepiaram, ficando por momentos, hirtas e petrificadas. Olhou assustado e receoso aquela gigantesca extremidade córnea de um forte amarelo, que formava o curvilíneo bico daquela águia real e fechou os olhos numa murmurada prece, esperando o pior. Por sua vez a águia, continuou inerte e estática, contemplando apenas na sua mumificação e quietude, o deplorável estado daquele tiritante e tremente despenado pardalito.
Na sua habitual e característica expressão séria e aguda, a águia perguntou-lhe:
«Porque me persegues e me vigias, pardal?»
Muito a medo e timidamente o pardal titubeou algumas tremidas palavras soltas:
«Gostava de ser uma águia como tu... bela... inteligente e ... forte!»
Como a águia se mantinha em silêncio, este encheu-se com alguma réstia de coragem e com alguma determinação continuou a responder àquela gigante e senhora dos ares:
«Mas... o meu voo é muito fraco e baixo! As minhas asas são muito pequenas e curtas! E a minha vista não é muito profunda. Vivo com muita tristeza por não poder conseguir ultrapassar as minhas fronteiras, nem tão pouco os meus limites. Por isso, te sigo com o meu olhar, para que desse modo, melhor possa compreender como o fazes, como também para melhor poder sonhar com o dia em que serei como tu, uma águia. Quando esse dia chegar, voarei muito alto, e lá no cimo, pairarei com as minhas asas bem abertas ao sabor das correntes de ar. Assim estás a ver...»
e estica as suas pequenas e mal tratadas asas, para melhor exemplificar o voo que iria um dia fazer nas alturas daqueles céus laranjas.
«voarei nas grandes alturas enormes distâncias, que nos dão o poder de sermos completamente soltos e livres. No velho bosque, todos me olharão com respeito. Todos me farão vénias à minha passagem, e em todos os meus conterrâneos eu serei sempre o seu preferido tema de conversa...»
A águia surpresa por tanta e desmedida ambição, que não hesitou em interromper aquele sonho falado, perguntando quase de rompão ao pequenote, como ele se sentiria se chegasse à conclusão, que as suas pequenas asas o impediam de desfrutar e de usufruir de tudo o que acabava de descrever e sonhar. Ao que o pardalito sem aparente hesitação lhe respondeu com alguma euforia mal contida, que ele era depositário de muita fé e de muita crença, e que algo no seu interior mais forte do que ele, lhe havia confidenciado que um dia, nem que fosse em uma outra vida, ele seria uma ágil e forte águia real. Mas que de momento, as suas asas o impediam de concretizar aquele sonho acalentado já há muito. Lançou de seguida ao vento, uma metralha de descontentamentos, maldições e infortúnios por ter nascido com aquele franzino e débil corpo. Mal disse até, o dia em que nasceu, e chegou mesmo a desejar juntar-se rapidamente à eterna luz do Oriente, para que renascesse sem demora com o corpo de uma forte e ágil águia real. De súbito caiu em si, e respondeu com algum pesar e uma sentida tristeza: que sentiria muita infelicidade e muita amargura se tal viesse a acontecer. Naquele momento, já uma profunda tristeza lhe invadia o seu pequeno coração por ser desajeitado, ter medo das alturas e não conseguir voar muito alto.
Disse ele ainda na forma de justificação e de confissão, que tinha uma grande vontade de ultrapassar todas as vicissitudes e todas as contrariedades que impedissem a realização do seu sonho. Contudo, não se cansava de maldizer o dia em que tinha visto a luz pela primeira vez. Chegou mesmo a dizer que não valeria a pena viver se nunca conseguisse realizar o seu sonho de voar acima das nuvens, sentir o frio das alturas e a sua vista se perder no infinito do horizonte. Esse sim, seria o delicioso sentimento que lhe transmitiria a dignidade e o sentido da liberdade...
O pardal suspirou com profundidade, ao mesmo tempo que olhando com tristeza para o chão... uma lágrima brotou dos seus olhos a confirmar a tristeza que habitava em todo o seu ser e disse com voz arrastada:
«Todos os dias, faça chuva ou sol, frio ou calor, tanto ao amanhecer como ao entardecer, eu estou de sentinela na mais alta árvore deste bosque para, tanto te ver voar como caçar. Pois, eu quero contigo aprender todos os segredos da arte de voar e de caçar. Sem dúvida, tu és para mim única, tanto pela tua beleza, como pela tua inteligência e pela tua força».
A águia, acusando um pouco de vaidade questiona o pardal com alguma curiosidade:
« Se passas todo o dia a observar-me. Então quando é que tu voas? Pardal!»
O Pardal em modos de confissão e quase num ténue sussurro confidenciou:
«A grande verdade é que eu gostaria de voar como tu voas... Mas as tuas alturas são demasiadas para mim. Eu tenho muito medo, e creio não ter as necessárias forças para suportar os fortes ventos que se fazem lá em cima, e tanto mais, que não sei voar com a graça e com a agilidade com que tu harmoniosamente lá no alto planas...»
A águia ficou muito comovida e com muita pena daquele infeliz pardalito que talvez por isso, esta tivesse sentido uma forte necessidade em o consolar dizendo-lhe com esse fim:
«bem sabes que a natureza de cada um de nós é muito diferente...»
«Bem sei! Bem sei! Maldito o dia em que nasci.»
E com esta curta exclamação, o pardal voltou ao seu costumeiro inconformismo de sempre, pelo que a águia sentiu a necessidade ainda de lhe transmitir algumas palavras de apoio, de conforto e de alguma esperança. Ao mesmo tempo, que no seu interior algo de muito grande ia crescendo. A águia apesar da sua lucidez e sagacidade, foi incapaz de contrariar tal sentimento e por isso, com uma voz modelada pelo sentimento lhe disse:
«Não estou com isto a querer dizer, que nunca poderás voar como uma águia. Antes pelo contrário. Se fores firme e teimoso no teu propósito, e deixares que a águia que vive no teu espírito se solte e se liberte, então ela dar-te-á a possibilidade de vires a voar tão alto como eu. Acredita no que te digo! O teu espírito poderá ser o de uma águia.»
Apesar das harmoniosas e confortáveis palavras da águia, o pardal continuava a ter no seu espírito o desânimo e a descrença como companheiros, pelo que a águia lhe disse ainda antes de se preparar para levantar voo.
«apenas mais um pequeno conselho, meu amigo: tu nunca poderás voar como uma águia, se não treinares intensamente e incansavelmente todos os dias. O treino é o que te dará o conhecimento, o fortalecimento e a compreensão para que possas na realidade concretizar os teus sonhos. Se não pões em prática a tua vontade, o teu sonho nunca passará dum sonho. Esta é a nua realidade para aqueles que não temem, tanto quebrar os limites, como as crenças, porque conhecem o que na realidade deve ser conhecido e feito. Um pardal, poderá sempre transformar-se numa águia, se esta for sua vontade. Confia em ti e voa o mais alto que poderes. Entrega as tuas asas aos ventos norte, e aprende com eles o necessário equilíbrio para poderes planar longe. Tudo é possível para aqueles que compreendem que são seres livres e inteligentes, basta apenas em acreditarem nas suas capacidades e potencialidades, basta apenas confiarem nas suas potencialidades em aprenderem a serem felizes!».
O tempo passou e o inverno chegou. O pardal mal deu conta de quanto tempo havia passado desde o dia em que a águia lhe deu os nobres e argutos conselhos. Desde esse momento, o tempo não lhe chegava para treinar a arte e a técnica tanto do voo como o da caça. Ainda não estava exímio nessas artes mas tinha evoluído muito e era mais seguro de si.
No velho bosque, os gigantes carvalhos e os grandes castanheiros despiram-se para receber as grandes chuvas e as densas neves, que os transformaram em frios e húmidos troncos brancos, e às restantes árvores em fantasmagóricos espectros, donde sobressaiam esqueléticos e retorcidos dedos apontados tanto para a luminosidade do alto, como para o esbranquiçado pico da montanha, como que a assinalarem naquele gesto, que algo de grande e de divino ali naquele momento se passava.
A silhueta da águia real, sempre pontual nos alaranjados entardeceres, já alguns dias tinha deixado de aparecer naqueles brumosos e esbranquiçados céus, pelo que o pardal utilizava todo o seu tempo livre num intenso e dedicado treino, tanto de voo como de caça.
O uivo e o silvar do vento, sempre brutal e agressivo para o velho bosque, também havia já algum tempo cessado e desaparecido. O único som distinto e cristalino naquele bosque de fantasmas, era o chilrear das perdizes, das toutinegras, dos tentilhões, e de muitas outras aves, que cantavam ao desafio a sua hilariante alegria, por a neve ter cessado de cair farta e abundante.
O manifestante e contangiante chilreio de contentamento e de estonteante alegria das aves habitantes daquele bosque entapetado de branco, apesar de forte e de intenso, dava-nos a sensação que este ainda ganhava mais força e mais vida, à medida que apurávamos o nosso ouvido e a nossa atenção se esmerava naquelas maravilhosas melodias. Os sons que invadiam aquele bosque coberto por um farto manto branco, eram na generalidade cristalinos, límpidos e claros, embora, alguns houvesse, indecifráveis e até imprecisos. No entanto, um havia, que se destacava na soberania de todos eles. Era um som forte e matraqueado, que ressoava por entre os velhos e despidos troncos brancos, numa cadenciada, repetida e chorada melodia.
Um "kau, kau, kau " pungente e lúgubre ecoava por todo aquele bosque de fantasmas, denunciando a todos os que lá viviam, o grande drama que a águia real vivia. Pois esta com o passar dos anos, tinha ficado com o seu adunco bico enfraquecido e gasto, as suas garras tinham crescido desmesuradamente, tortas e enfraquecidas, e as suas penas se tornaram velhas e pesadas. Estas excrescências e contrariedades, eram os sinais inequívocos da sua já muita idade, pois estes dificultavam-lhe gravemente, tanto a performance do seu voo, como a sua eficácia e eficiência na caça. Em face destas vicissitudes da vida e partidas do tempo, a quem já não é muito novo, a sua sobrevivência estava por isso largamente ameaçava e seriamente condenada ao malogro, se algo ela urgentemente não fizesse para contrariar os seus visíveis sinais de velhice e de decadência.
Aquela majestosa águia real já tinha defrontado e superado quarenta invernias e fazia preces para poder vir a defrontar outras tantas. Mas, de momento, ela teria de tomar a grande decisão da sua vida. Isto é, ela teria de optar por viver ou por morrer.
O seu forte espírito de sobrevivência falou mais alto e mais forte, por isso, no alto do seu penhasco ela tomou a decisão de iniciar o ritual do renascimento, o qual, iria durar muitos e longos dias, aproximadamente uns cento e cinquenta. Derivado dessa corajosa e pronta decisão, os habitantes daquele bosque puderam ouvir o cadenciado e oco batuque, que dolentemente ressoava por todos os recantos do bosque. Este, era o som provocado pelo seu velho bico, quando esta sucessivamente e com fúria o batia nas pedras, para desse modo o arrancar e o soltar. Logo que esta operação esteja concretizada e que um outro novo e forte bico lhe nasça, ela iniciará a operação de arrancar as garras, uma por uma. Por sua vez, quando lhe nascerem as novas e poderosas garras afiadas, ela com estas e juntamente com o seu poderoso bico, apesar do intenso frio que na alta montanha se iria fazer, ela iria arrancar as velhas e sujas penas do seu corpo, uma a uma, a fim de que outras novas lhe venham a nascer. Com esta dolorosa e sofrida metamorfose, ela ficará restaurada, rejuvenescida e renascida, pronta para enfrentar todas as vicissitudes e contrariedades da sua nova vida.
Muitos dias depois, precisamente quando a neve e a chuva fizeram uma trégua e o nevoeiro transformou a visão do bosque em esparsas e raras imagens visíveis, redesenhando dessa forma a paisagem em cada momento, uma vez que apenas se distinguiam aqui e ali uma mancha um pouco mais escura, à qual por intuição e indução atribuíamos ser a silhueta de uma árvore mais copada ou mais robusta, ouviu-se proveniente das alturas um estridente, forte e agudo grito, que anunciou a boa nova aos habitantes daquele ainda gelado bosque, e em particular ao pardal, que apesar da esbranquiçada bruma os impedir de admirar a grande e exuberante silhueta da bela e rejuvenescida águia real, que lá no alto, voltava a fazer piruetas e arrojadas acrobacias aéreas, ele a imaginava esbelta e majestosa no seu pungente voo.
Quando uma clareira se fez no denso nevoeiro, e o pardal pode ver para seu gáudio, a sua velha a amiga em toda a sua magnificência e majestade ele ficou enternecido e deleitado pelo o que viu. Talvez fosse mera impressão sua, mas ele achou que a metamorfose que nela havia sido operada, lhe tinha conferido maior agilidade e até parecia que esta tinha um voo mais preciso e mais elegante do que nunca.
Naquele voo livre e solto, a velha senhora dos ares anunciava desse modo a todos, a sua renovada esperança de poder vir a viver mais quarenta invernos sobre aqueles céus esbranquiçados e de entardeceres alaranjados.
Que bom que não seria, se todos os seres tivessem a possibilidade de conquistar pelos seus próprios meios, mesmo que com grandes sacrifícios e dificuldades, melhores anos de vida, e até mesmo, poderem conquistar a sua juventude já há muito tempo saudosa e perdida. Como seria magnífico, perfeito e belo poderem fazer o mesmo que águia real o fez com coragem e determinação, para que desse modo pudessem vir a viver tanto melhores dias como a terem melhor qualidade de vida.
O seu dedicado e fiel fã, tal como os outros, através da clareira que se fez no denso nevoeiro que havia invadido o bosque, também ele pode ver com deslumbramento e contentamento nos brumosos céus, a sua querida escura silhueta de liberdade e de tenacidade. Mas desta vez, ele já a não seguiu furtivamente de ramo em ramo como até aí o havia feito. Não! Desta vez sem resto de medo, com determinação e com invulgar coragem, voou acima dos espigados e nus ramos das árvores do bosque, e lá no alto, com as asas bem abertas, pairou ao sabor dos ainda gélidos e agrestes ventos. Nesse pioneiro voo, atingiu alturas que para ele, até ali, eram inimagináveis e inconcebidas. Maravilhado e estarrecido com o que via. Assim, pela primeira vez ele pode reparar e apreciar, como ali do alto a visão da paisagem branca era desoladora e inóspita, como também pode reparar como ali do alto tudo era tão pequeno, tudo era tão efémero e sem importância de maior.
A partir desse dia o pardal passou a voar cada vez mais alto e mais distante, alargando desmesuradamente desse modo o seu conhecimento e a opinião que tinha das coisas da vida. Embora não fosse comparável com as alturas e as distâncias que a sua amiga águia real praticava, eram no entanto para ele alturas e distâncias surpreendentes e colossais. Sempre solitário nas suas viagens de busca e de prospecção, não se cansava no entanto de questionar tudo o que era para ele novo e desconhecido.
Naquele bosque, havia um velho e robusto carvalho com uma aparência gigantesca, rude e disforme, como se este na sua vida tivesse despendido muita força e muita energia. Cada tempestade para um carvalho é mais um desafio a ser vencido e não uma verdadeira ameaça, uma vez, que numa grande tempestade muitas árvores são arrancadas pela raiz, mas o carvalho permanece firme e sólido no local onde nasceu e pela primeira vez viu a luz do dia. Quantos mais temporais e tempestades o carvalho venha a enfrentar, mais forte e maior este fica. E com estas intempéries as suas raízes se aprofundam e afundam ainda mais nas entranhas da terra e o seu tronco se alarga e mais forte e robusto fica, sendo por isso, completamente impossível uma qualquer tempestade ou temporal o arrancar do solo ou o derrubar. Pois nesse forte e grande carvalho, certo dia, quando o sol se despedia tanto do bosque como da montanha e a lua lhes dava as suas boas vindas, uma grande assembleia de pardais nele se reuniu, afim de deliberarem a permanência no bando, ou não, do pardal de costumes heréticos e transviados.
O quoro daquela assembleia era composto por uma multidão, pois todos os imensos troncos e ramos daquele velho e forte carvalho estavam ocupados por pardais, que inquietos e desassossegados, chilreavam aos atropelos e ao desafio entre si. Quando um pardal já ancião tomou o lugar no centro daquela gigantesca assembleia, todos se calaram e emudeceram em sinal de profundo e sentido respeito. Num solene e majestoso gesto, ele deu de imediato inicio àquela assembleia, e por isso, deu de imediato a palavra ao orador, para que este anunciasse analiticamente àquela assembleia, as razões que levaram a esta a se constituir e a se reunir naquele grande e frondoso velho carvalho.
O orador, num local bem visível e acima dos demais, de papo cheio, de harmonia com um ritual muito estudado, iniciou um discurso com esmerada eloquência e encenação teatral, que o pardal transviado violara todas as normas e regras de conduta de um pardal daquele bando. Deu como provas inequívocas da sua acusação, o facto de o pardal já não picar o solo com o seu bico na busca de sementes e outros restos do bosque, mas sim, que este se dedicava à caça numa técnica que se assemelhava em muito, às técnicas utilizadas pelos seus predadores.
Disse em tons estudadamente sombrios e sérios, que o pardal transviado tinha deixado de picar o solo na busca dos seus alimentos, para preferir caçar, tal como os seu inimigos o faziam, com uma técnica que consistia em depois de ter avistado a sua presa, efectuava um voo picado e desse modo, apanhava nas suas unhas em forma de garras, grandes insectos, gordas lagartas, fartas lesmas, robustos caracóis e até longas minhocas. Depois destas suculentas presas ficarem bem agarradas nas suas patas, ele as levava para um lugar seguro e ai gulosamente as devorava. Com este detalhado discurso, os mais novos começaram a sentir crescer água nos seus bicos, e por momentos pensaram que o pardal transviado talvez até fosse um exemplo a seguir, mas assim que olharam a carranca do pardal já de muita idade, ficaram assustados, e a medo reprimiram os seus repticianos apetites, e puseram a mascara conveniente ao solene momento.
E o mais grave, dizia eloquentemente e solenemente o orador, era que ele voava de forma absolutamente estranha e bizarra, num sinal claro de ter negado e desprezado todos os costumes dos seus iguais. Disse ainda o orador, que se sabia pelo departamento de inteligência dos pardais, que este aprofundava e estudava conhecimentos proibidos e pelo código de conduta do bando altamente condenatórios, pelo que, aquela assembleia deveria de exemplarmente, com firmeza e com dureza punir o infractor.
O ancião, com a calma e a paciência dos maiores e a gravidade da sua autoridade, deu de seguida a palavra às testemunhas abonatórias do pardal transviado. Só uma, timidamente e muito a medo se apresentou e lhe pediu com cortesia sussurrada a palavra. Todos chilrearam frases azedas de apupo e de descontentamento, sem que fossem mandados calar pelo pardal de muita idade. Muito a medo, a testemunha abonatória que aparentemente, quase parecia ser a alma gémea do pardal transviado. Iniciou o seu testemunho com titubeadas e soltas palavras. A assembleia continuava turbulenta e o pardal ancião nada fez para aquietar aquela barulhenta turba. Assim, no meio deste burburinho e desassossego, a testemunha confessou ser seu irmão e testemunhou de entre muitas coisas que sabia do passado deste, que o seu pai queria fazer dele a reprodução de si próprio. O mesmo queria o seu tio. A sua mãe pretendia fazer dele a imagem do seu ilustre e saudoso pai. A sua irmã considerava o seu marido como o exemplo perfeito, que o seu irmão deveria seguir. Como disse ainda também, que até ele próprio, por sua vez, queria que ele fosse como ele, um excelente tenor. E os seus professores também queriam que ele fosse a sua imagem... O de saltitar queria que ele saltitasse como um atleta; o professor de canto queria que ele fosse virtuoso na ciência dos sons; o professor de costumes queria que ele fosse exemplar e a referência dos seus... Cada um que com ele conviveu, queria que ele fosse senão o reflexo da sua própria imagem. E por essa razão, ele tinha seguido aquele confuso e solitário caminho. Segundo a sua opinião, com tanta exigência de quem o rodeava, este havia perdido a sua sanidade e tinha enlouquecido. E confidenciou de seguida quase num murmúrio sussurrado que ninguém o pode ouvir, que pelo menos assim, ele poderia ser ele mesmo.
De todo o discurso desta testemunha abonatória, a assembleia dele só reteve a confirmação, de que o perigoso pardal transviado, havia enlouquecido e perdido a sua sanidade mental. O veredicto final estava já inexoravelmente traçado com o resumo deste último testemunho. O pardal transviado foi considerado por aquela magna assembleia como um louco perigoso e por isso, foi condenado à expulsão do bando, como todo aquele, que se lhe dirigisse ou mantivesse relações amistosas para com este.
Quando a comissão constituída para anunciar ao pardal transviado a decisão da magna assembleia dos pardais, cumpriu a sua difícil e espinhosa missão, o pardal transviado ficou por momentos profundamente amargurado e muito triste com os seus. Com um suspiro pensou, que deveria tirar proveito das situações contrárias à sua vida, e tal como o carvalho que serviu para albergar a assembleia que o havia condenado, este deveria com esta vicissitude ficar mais forte e mais confiante em si próprio. Um pouco marcado, é certo, e por vezes até com a aparência desiludida e abatida, mas o seu interior seria sempre forte e com as raízes bem firmes e profundas na terra.
A vicissitude com que o pardal transviado se debateu, foi assim por este encarada com o exemplo do velho carvalho... e por isso, como um desabafo, num piar baixo ele disse: «É apenas só mais uma tempestade que me tornará mais forte e mais seguro de mim mesmo». Assim, este pensou de seguida, que o triste acontecimento não era assim tão grave, pois ele próprio já não se sentia um pardal, por isso, só tinha de que agradecer a estes a sua decisão, pois ajudaram-no a cortar os elos e as amarras que ainda o prendiam ao seu passado. Ele já não era um pardal, ele era uma águia, sentia a vida como uma águia e as águias vivem sós. Assim, como uma águia ele raciocinou e disse para si num baixo piar: « apesar de pairarem nuvens ameaçadoras nos céus, eu não devo nunca, dobrar as minhas asas, como não devo também fugir para o meu abrigo e nele me esconder. Mas sim, tal como a minha amiga águia real. Eu devo abrir largamente as minhas asas e planar para bem alto. Acima dos problemas que a vida me traz. Pois as águias quanto mais alto voam, mais tranquilos e mais brilhantes se tornam os céus». E assim no alto das copas, o pardal voou, voou e quando olhou para trás de si verificou, que a tempestade havia passado, uma vez que no seu espírito vivia agora a sensação de liberdade e nele também habitava a plena confiança em si próprio. E com este voo livre e solto ele encontrou novas forças e nova coragem para enfrentar o desconhecido e o misterioso que a vida nos reserva.
Numa certa escura e nublosa noite, em que o silêncio era do mais profundo, embora a noite já tivesse caído há muito, o sono teimava em não visitar o pardal, que no interior de um buraco que se situava num dos mais altos galhos do velho carvalho, e que nessas alturas lhe dava o abrigo, o conforto e o necessário aconchego à sua solidão, ele nesse isolado refúgio não parava de suspirar, transmitindo assim, tanto a sua grande tristeza e melancolia, como a sua enorme amargura e agastamento, que lhe invadia tanto o espírito como o coração.
A sua expulsão do bando, ainda era uma ferida que lhe ardia e lhe dilacerava vorazmente o seu soturno e mórbido espírito, razão porque negros pensamentos se espraiavam no seu espírito e as lúcidas ideias nele estavam ausentes ou fugidias. Em face deste desconsolo e sentimento de abandono, ele sentia uma grande necessidade de meditar e de reflectir sobre a sua nova condição de banido e de proscrito do bando que o viu nascer, razão porque ele no fundo até se sentia muito bem no meio daquele manto escuro, que para além de transformar a sua toca numa câmara de reflexão, conferia-lhe ainda, também, tanto o indispensável silêncio, como o hipnótico mistério, para que ele pudesse soltar as amarras do conhecimento e desse largas à sua fértil e criativa imaginação, sobre qual a estratégia de conduta que ele deveria daí em diante seguir.
A noite passou silenciosa e pachorrenta pelo velho bosque, até que os primeiros esteriados raios da manhã, alaranjaram os cumes da montanha e deram a tonalidade avermelhada às copas das mais altas árvores do bosque. Com o nascimento dessa romântica e sonhadora claridade, os costumeiros madrugadores cantaram ao desafio as graças por verem mais um dia nascer. Apesar do chilrear ser crescente e forte, o pardal mal deu conta do despertar da vida daquele pequeno efervescente microcosmos. Na sua escura câmara de reflexão, ele continuava em total êxtase e numa profunda meditação. Nesse estado febril, ele congeminava sucessivos cenários de atitudes e de conduta, que este deveria seguir em face da injusta e cruel expulsão do bando de que havia sido alvo.
Depois de uma noite de sonhos acordados e de imagens projectadas no vácuo, o pardal retirou dessa profunda meditação e reflexão duas conclusões: ou mudava radicalmente as aves que compunham o seu círculo social; ou mudaria ele a sua maneira e a forma de se relacionar com os seus iguais. A voz da sua consciência, depois de uma noite sofrida e acordada, era o reflexo da revolta e da raiva mal contida, tanto contra aquele ancião de maneiras e gestos autoritários e autocráticos, como contra aquele orador de teatrais e engenhosas falas mansas.
A sua conduta no futuro, só poderia ser a conduta que o conduzisse ao mais profundo desprezo para com os seus iguais, uma vez, que nunca se pode esperar laranjas de um pessegueiro, a menos que se queira ser masoquista e ter-se o sórdido gosto em sofrer. Mas, o pardal estava inabalável e firme na sua convicção de ultrapassar os limites que a natureza e o costume lhe impuseram. Ele achava até muito injusto, tanto os comentários e falatórios de que ele havia sido alvo, bem como cruel, a pena que lhe havia sido sancionada pela assembleia dos pardais. Em vez de o agraciarem, de o aplaudirem e até de o estimularem à vitória tanto sobre os desafios, como sobre os escolhos que a vida nos coloca passo a passo, antes pelo contrário, condenaram-no, tanto pela sua ousadia, como pela sua tenacidade em defrontar o desconhecido e o desejo de desvendar os mistérios que ainda se escondem do nosso conhecimento.
As negras nuvens da revolta e da rebelião que toldavam o espírito do pardal, faziam com que este achasse que os pêssegos até poderiam ser um dos frutos mais deliciosos e saborosos daquele bosque, mas que de modo algum substituíam o forte desejo que por vezes ele tinha de suculentas, sumarentas e gordas laranjas, tanto mais, que ele até sabia onde naquele vespeiro de vida havia laranjeiras carregadas com tais saborosos frutos. Com esta simples lógica, gradualmente, o orgulho e a altivez voltaram a inchar o seu espirito renovando-lhe a sua autoconfiança e o seu egocentrismo. Pois, ele estava inabalavelmente convicto, que o essencial e o mais importante era que ele sabia da existência de outras aves que lhe poderiam proporcionar tanto a indispensável companhia, como o conhecimento e os estímulos de que ele tanto necessitava.
Na verdade, por intuição, o pardal até sabia que esperar estímulos e atenção das outras aves que faziam parte do seu antigo bando, depois tanto do que por elas havia sido dito, como por elas havia sido praticado, era mera utopia e vontade de querer sofrer. Por isso, esperar que o bando o aceitasse de novo, não seria de forma alguma uma decisão ponderada e razoável, uma vez, que o haviam considerado como um perigoso louco. Logo, por esse facto, o bando nada lhe tinha para oferecer. Em consequência deste rancoroso pensamento, ele com um alto piar concluiu, que se os pardais o tivessem querido aceitar como ele na realidade era, ele teria ficado encantado e teria gostado muito deles. Mas, pelo contrário, eles tanto o quiseram desprezar, como quiseram desvalorizar as suas inéditas qualidades. Deste modo, o problema só poderia ser apenas deles, uma vez que ele há muito, já havia aprendido que somente ele próprio poderia se desvalorizar e se desqualificar, se essa fosse a sua vontade e se esse fosse o seu real desejo.
Apesar do sonho ser muitas das vezes uma armadilha da vida real. O pardal apesar de uma noite acordada estava lúcido nas suas idéias e por isso com frieza pensou, que se o bando havia deliberado aquela injusta sentença a responsabilidade só poderia ser deles, uma vez, que somente os lobos caem nas armadilhas para os lobos. Ele jamais pensou em permitir, que o espinho da humilhação ou da desonra que cruelmente lhe cravaram o afectasse com profundidade. Esse espinho, no seu entender, apenas lhe causou uma picada acompanhada de uma passageira aguda dor. Ele era uma nobre e majestosa águia porque no seu interior vive o espírito de uma majestosa e nobre águia e não a demência e a loucura que os pardais anciãos o acusam e o querem fazer crer.
O pardal em termos de conclusão da sua reflexão e da sua prolongada meditação, num sonoro piar ao vento concluiu: como poderia a decisão do bando o afectar se ele nunca poderia ser melhor só pelo facto de ser elogiado, como nunca poderia ficar pior pelo facto de o criticarem ou de o combaterem. Logo, o sucedido seria apenas um triste percalço na sua vida e decidiu que o mais importante era permanecer, discreto continuando a ser ele mesmo, na constante e permanente procura do seu aprimoramento íntimo e na busca do conhecimento mágico e misterioso que tornasse a vida mais segura e mais bela.
O Pardal ao entardecer desse mesmo dia, voou muito para além dos limites do velho bosque, até um já não muito novo campanário, de linhas esguias e de cúpula piramidal, que ele havia descoberto em uma das suas últimas expedições de prospecção e de descobrimento. Nessa esguia e alta torre, vivia uma velha e ao que dizem sábia coruja, que tinha o dom de ver no escuro as questões mais profundas e mais obscuras da vida. Consta-se, que onde as aves comuns nada percebiam e nada entendiam da vida, esta filósofa coruja tudo via e tudo compreendia. Ela era o expoente máximo do saber filosófico, da pura teoria, da abstracta ciência, e neste sentido ela era uma autoridade incontestável na matéria em questão.
O pardal sem rodeios, contou à douta coruja todos os acontecimentos que ocorreram no velho bosque e em que ele fora um dos principais protagonistas de cena. A coruja com o seu grande olhar sempre muito astuto e atento despia o espírito do pardal ao mesmo tempo que com um bisturi retalhava o problema que tanto o afligia e que tanto o preocupava. A noite já era adulta quando o pardal terminou o seu relato dos acontecimentos por ele vividos. Por fim, ela laconicamente e pausadamente respondeu, que as grandes transformações somente aconteciam quando os espíritos passavam pela prova do fogo e todos os espíritos que não passassem por esta prova ficariam a vida inteira sempre iguais e sempre imutáveis rudes como pedras informes. Pois as aves que o haviam condenado eram duma dureza assombrosa porque nunca haviam conhecido a prova do fogo. Razão porque elas não tinham percebido nem tão pouco compreendido o alcance da busca e da procura dos novos conhecimentos que o pardal havia iniciado. Essas aves tinham o seu próprio jeito de ser e supunham até que esse jeito de ser era o melhor e o único.
Assim a coruja fez saber ao pardal que este havia conhecido o tenebroso e temível fogo que tudo consome e que tudo purifica. O fogo é a prova máxima de que qualquer espírito pode a qualquer momento estar sujeito, pelos acasos do destino, pois as leis da vida podem em qualquer momento nos lançar esta prova numa forma de que nunca poderíamos suspeitar ou imaginar como um desafio para nos testar tanto a nossa determinação e coragem como para temperar o nosso carácter e rejuvenescer a tenacidade e perseverança. O fogo é dor e é sofrimento e assume duas formas: o fogo pode ser um fogo exterior o qual pode ser a perda dum amor, a perda de um ente muito querido, ficar doente, perder a actividade e ocupação habitual, ou ficar pobre e miserável; ou pode ser o fogo interior: o qual se traduz pelo pânico, pelo medo, pela ansiedade, pela depressão ou até mesmo por sofrimentos cujas causas ignoramos.
São aquelas pessoas que, por mais que o fogo esquente se recusam a mudar. Elas acham que não pode existir coisa mais maravilhosa do que o jeito delas serem. A sua presunção e o medo são a dura casca que não estoura. O destino delas é triste. Ficarão duras a vida inteira.
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