Certo dia, no interior de um já não muito novo campanário esguio e de cúpula piramidal, um velho e sábio mocho foi despertado da sua letargia, pelo ácido diálogo que se estava a desenrolar em forma de esgrima, entre uma coruja inquilina e sua vizinha daquele lugar já de algumas invernias, e um rouxinol ainda há pouco tempo forasteiro daquelas paragens.
Dizia o rouxinol naquele momento para a coruja, em desenvoltos e seguros trinados de grande sonoridade:
«eu represento a beleza, a graça, o sol, e a vida, enquanto tu feia coruja, simbolizas a misteriosa noite, o teu nocturno piar simboliza a morte, e todos os homens temem o desenho da tua silhueta numa noite de lua cheia, porque representas o mal e só por isso, tu és o símbolo dos seus mais tenebrosos pesadelos. O homem não gosta de ti! Coruja. Ele só se sente feliz e satisfeito quando a tua silhueta não apareça na sua retina. Ele só se sente feliz quando o teu piar se ausenta dos seus ouvidos. Ele só se sente satisfeito quando a tua imagem se afasta para sempre da sua mente.»
«Enganas-te palhaço pintado, ele sabe que eu vejo no escuro, por isso, para ele eu simbolizo a filosofia, que permite ver as questões mais profundas e obscuras. E tu sabes paleta de cores salteadas, que onde o homem comum nada percebe e nada entende, o filósofo tudo vê e tudo compreende! Eu represento por isso o saber filosófico, a teoria pura, a ciência abstracta e, neste sentido para o homem, eu simbolizo o bem. Ele não me teme, ele aprecia deveras o meu grande saber e a forma sagaz de o descortinar e descodificar.»
«Deixa-me rir velha carcaça com penas... tu o símbolo da filosofia! Se encaras desse modo a questão, então eu sou para o homem o símbolo da poesia. Até o meu próprio nome mais parece haver nele um trinado sonoro de contagiante alegria. Ele é um raio de sol cantado que hipnotiza a sensibilidade do homem. Eu sou de certo o seu preferido, para habitar este lugar encantado.»
«Mas eu para ele sou a luz intelectual. Não há escuridão para os meus argutos olhos. Mocho! Vejo que já estás desperto pelo falsete trinado deste arco íris voador, diz-lhe! Sendo tu o símbolo do conhecimento, quem escolheria o homem para viver neste santuário? a mim! que represento a sabedoria, ou este peralta pintalgado que representa a estéril beleza!»
«Bem, eu gostaria não me envolver na vossa contenda, mas já que solicitas a minha opinião, e se vós a considerais muito importante para acabar com o vosso desentendimento, então escutem com muita atenção aquilo que vos tenho para dizer: a sabedoria é tão desejável como a beleza é amável. A filosofia ilumina. A poesia encanta. Preferir o saber, excluindo a beleza? Ou, Escravizar-se a beleza e repelir a sabedoria? Eu escolheria ambas, e o Homem inteligente, sensato e esclarecido escolheria para viver neste seu santuário, sobrevivente já de muitos temporais e invernias, tanto a ti minha velha amiga e sensata coruja, como a ti meu jovem e estouvado rouxinol. Em suma, ele escolheria a sabedoria e a beleza, a ciência e a poesia, a luz e a música. Porque a sabedoria e a beleza são inseparáveis, e ele sabe que a sabedoria é formosa e que toda beleza possui o brilho da verdade. Coruja e rouxinol vocês completam-se, acabem com essa inútil briga e com essa estéril discussão, pois ambos simbolizam a essência para uma vida humana em total harmonia. Não queiram com a vossa teimosia, fazer com que esta mente venha a engrossar o caudal do pensamento que se tem caracterizado pela total oposição entre a doutrina e a realidade, a teoria e a prática. Eu tenho assistido na minha já não muito curta existência a oposições que atingem o desvario. Pois enquanto umas só valorizam a experiência, outras perdem-se em elucubrações cerebrinas. Perpetuando essa discussão, vocês só irão fazer com que esta mente venha a engrossar as turbas dos pragmáticos, dos adoradores do concreto que tendem ao puro materialismo. Meus vizinhos desaveços, como seria frio e estéril este campanário sem a coruja e sem o rouxinol! Como seria vazio e superficial este campanário sem o rouxinol e sem a coruja! De que vale a teoria sem a realidade? De que vale a poesia sem a verdade? O ideal é unir-vos pelo que vocês os dois representam, pois o real é a luz intelectual na música da matéria. O real é a harmonia entre o teórico e o prático, a doutrina e a vida, o abstracto e o concreto, a coruja e o rouxinol. Sendo o homem composto de elementos diferentes mas harmónicos entre si, agrada-lhe que viva no seu cérebro tanto o que lhe significa a coruja como o que lhe significa o rouxinol. Por isso sejam aquilo que representais, o homem ama a concórdia dos elementos aparentemente opostos. Nem o puramente abstracto, nem o puramente material satisfazem plenamente o homem. A razão não encontra nas criações poéticas toda a verdade de que necessita, pois a luz da verdade, na poesia, é por demais difusa. A sabedoria do abstracto é o vitral que lhe torna possível ver através da luz ofuscante de Deus, em todas as suas cores, brilhos e virtudes. A luz filtrada por este vitral de encantamento, encarna-se no Verbo de Deus, na Verdade Divina acessível à visão humana.»
«De ti Mocho, já aguardava e esperava as sábias e doutas palavras que acabaste de proferir. Sempre agradáveis ao nosso ouvido. Por mim, reconheço e aceito a parceria da vivência neste espaço do jovial e alegre Rouxinol.»
«Coruja! As científicas palavras emanadas pelo Mocho, são o expoente máximo da inteligência e da musicalidade que o seu sentido traduz. O Mocho ajudou-me a ver numa outra perspectiva, que humildemente te confesso, ainda não me tinha apercebido da sua existência. Reconheço e curvo-me à tua sabedoria e ao teu grande valor. Coruja!»
Finalmente, com a inteligência do Mocho a concórdia, a sintonia e a harmonia passou a reinar naquele campanário do saber e do conhecimento, não havendo até aos nossos dias memória de qualquer discordância dos seus inquilinos em tempos desaveços.
Dizia o rouxinol naquele momento para a coruja, em desenvoltos e seguros trinados de grande sonoridade:
«eu represento a beleza, a graça, o sol, e a vida, enquanto tu feia coruja, simbolizas a misteriosa noite, o teu nocturno piar simboliza a morte, e todos os homens temem o desenho da tua silhueta numa noite de lua cheia, porque representas o mal e só por isso, tu és o símbolo dos seus mais tenebrosos pesadelos. O homem não gosta de ti! Coruja. Ele só se sente feliz e satisfeito quando a tua silhueta não apareça na sua retina. Ele só se sente feliz quando o teu piar se ausenta dos seus ouvidos. Ele só se sente satisfeito quando a tua imagem se afasta para sempre da sua mente.»
«Enganas-te palhaço pintado, ele sabe que eu vejo no escuro, por isso, para ele eu simbolizo a filosofia, que permite ver as questões mais profundas e obscuras. E tu sabes paleta de cores salteadas, que onde o homem comum nada percebe e nada entende, o filósofo tudo vê e tudo compreende! Eu represento por isso o saber filosófico, a teoria pura, a ciência abstracta e, neste sentido para o homem, eu simbolizo o bem. Ele não me teme, ele aprecia deveras o meu grande saber e a forma sagaz de o descortinar e descodificar.»
«Deixa-me rir velha carcaça com penas... tu o símbolo da filosofia! Se encaras desse modo a questão, então eu sou para o homem o símbolo da poesia. Até o meu próprio nome mais parece haver nele um trinado sonoro de contagiante alegria. Ele é um raio de sol cantado que hipnotiza a sensibilidade do homem. Eu sou de certo o seu preferido, para habitar este lugar encantado.»
«Mas eu para ele sou a luz intelectual. Não há escuridão para os meus argutos olhos. Mocho! Vejo que já estás desperto pelo falsete trinado deste arco íris voador, diz-lhe! Sendo tu o símbolo do conhecimento, quem escolheria o homem para viver neste santuário? a mim! que represento a sabedoria, ou este peralta pintalgado que representa a estéril beleza!»
«Bem, eu gostaria não me envolver na vossa contenda, mas já que solicitas a minha opinião, e se vós a considerais muito importante para acabar com o vosso desentendimento, então escutem com muita atenção aquilo que vos tenho para dizer: a sabedoria é tão desejável como a beleza é amável. A filosofia ilumina. A poesia encanta. Preferir o saber, excluindo a beleza? Ou, Escravizar-se a beleza e repelir a sabedoria? Eu escolheria ambas, e o Homem inteligente, sensato e esclarecido escolheria para viver neste seu santuário, sobrevivente já de muitos temporais e invernias, tanto a ti minha velha amiga e sensata coruja, como a ti meu jovem e estouvado rouxinol. Em suma, ele escolheria a sabedoria e a beleza, a ciência e a poesia, a luz e a música. Porque a sabedoria e a beleza são inseparáveis, e ele sabe que a sabedoria é formosa e que toda beleza possui o brilho da verdade. Coruja e rouxinol vocês completam-se, acabem com essa inútil briga e com essa estéril discussão, pois ambos simbolizam a essência para uma vida humana em total harmonia. Não queiram com a vossa teimosia, fazer com que esta mente venha a engrossar o caudal do pensamento que se tem caracterizado pela total oposição entre a doutrina e a realidade, a teoria e a prática. Eu tenho assistido na minha já não muito curta existência a oposições que atingem o desvario. Pois enquanto umas só valorizam a experiência, outras perdem-se em elucubrações cerebrinas. Perpetuando essa discussão, vocês só irão fazer com que esta mente venha a engrossar as turbas dos pragmáticos, dos adoradores do concreto que tendem ao puro materialismo. Meus vizinhos desaveços, como seria frio e estéril este campanário sem a coruja e sem o rouxinol! Como seria vazio e superficial este campanário sem o rouxinol e sem a coruja! De que vale a teoria sem a realidade? De que vale a poesia sem a verdade? O ideal é unir-vos pelo que vocês os dois representam, pois o real é a luz intelectual na música da matéria. O real é a harmonia entre o teórico e o prático, a doutrina e a vida, o abstracto e o concreto, a coruja e o rouxinol. Sendo o homem composto de elementos diferentes mas harmónicos entre si, agrada-lhe que viva no seu cérebro tanto o que lhe significa a coruja como o que lhe significa o rouxinol. Por isso sejam aquilo que representais, o homem ama a concórdia dos elementos aparentemente opostos. Nem o puramente abstracto, nem o puramente material satisfazem plenamente o homem. A razão não encontra nas criações poéticas toda a verdade de que necessita, pois a luz da verdade, na poesia, é por demais difusa. A sabedoria do abstracto é o vitral que lhe torna possível ver através da luz ofuscante de Deus, em todas as suas cores, brilhos e virtudes. A luz filtrada por este vitral de encantamento, encarna-se no Verbo de Deus, na Verdade Divina acessível à visão humana.»
«De ti Mocho, já aguardava e esperava as sábias e doutas palavras que acabaste de proferir. Sempre agradáveis ao nosso ouvido. Por mim, reconheço e aceito a parceria da vivência neste espaço do jovial e alegre Rouxinol.»
«Coruja! As científicas palavras emanadas pelo Mocho, são o expoente máximo da inteligência e da musicalidade que o seu sentido traduz. O Mocho ajudou-me a ver numa outra perspectiva, que humildemente te confesso, ainda não me tinha apercebido da sua existência. Reconheço e curvo-me à tua sabedoria e ao teu grande valor. Coruja!»
Finalmente, com a inteligência do Mocho a concórdia, a sintonia e a harmonia passou a reinar naquele campanário do saber e do conhecimento, não havendo até aos nossos dias memória de qualquer discordância dos seus inquilinos em tempos desaveços.
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