sexta-feira, 21 de novembro de 2008

As Testemunhas

O manto da noite de um azul prussiano do mais profundo dentro da sua gama, lentamente cobriu a desértica e agreste paisagem. Rajadas cortantes do vento norte fustigavam com impiedade os três vultos, cujas silhuetas em visível esforço, se desenhavam na linha do horizonte. um deles dobrado sobre si, no dorso do que parecia ser um jumento, e o outro, com aparente dificuldade caminhava na dianteira deste, a fim de procurar e de escolher o melhor caminho, para atravessarem aquela deserta e inóspita paisagem.

Depois de muito caminharem pelas vastidões desertas de almas, paradeiro dos medos e das assombrações, numa quase total invisibilidade e num grande negrume, avistaram muito ao longe, em forma de concha de luz, as domésticas e bruxuleantes luzes de azeite de uma povoação. Com a visão deste oásis de esperança e de vida, fizeram de imediato rumo para este farol, com uma renovada decisão e um novo alento. Já em Belém, nome que era dado àquela povoação salpicada de pirilampos mágicos, uma porta, um pedido, uma recusa. Outra porta, outra solicitação e outra rejeição. E de recusa em recusa, de rejeição em rejeição, estes cansados e cambaleantes vultos caminharam pela noite adentro, batendo indiscriminadamente em todas as portas por onde passavam, e todas as portas teimosamente se lhes fechavam, até que finalmente tiveram acolhimento num lugar onde não havia portas. Num lugar em que o seu único hospedeiro não recusou dividir com eles a sua morada, e até mesmo os seus parcos haveres. Uma vaca de pêlo com a cor do fogo e longos chifres do mais puro branco, não hesitou em lhes oferecer o seu estábulo, a sua manjedoira, o seu feno e até mesmo o calor do seu próprio corpo.

Pela acção acolhedora e hospitaleira deste descendente de ápis, nessa fria e gélida noite desse distante Dezembro, que viria a dividir para sempre os tempos, este, juntamente com o jumento cujo o pêlo lembrava um adiantado crepúsculo, de orelhas compridas, auréolas brancas nos seus dóceis olhos e de crina curta, seriam as únicas testemunhas do maior acontecimento e mistério da história da humanidade. Pois eles, naquele obscuro e frio presépio, que viria ano após ano a ser lembrado em nossos próprios presépios, tiveram a imensurável honra e o grande privilégio de presenciar a Maria Santíssima a dar à luz a Luz.

De geração em geração, todos os presépios que construímos desde o tempo em que vestia-mos calções e trepava-mos às árvores, são em memória deste místico e grande acontecimento. E todos eles, mesmo que diferentes no seu cenário, têm em comum a presença das referidas testemunhas, as quais representam tanto no nosso intimo, como no nosso imaginário, uma: a força, a terra e a luz, e a outra: a noite, o saber oculto, a preserverância e o mistério. Pela sua pose de descanso e de descontracção, o quadro que herdamos do primeiro Natal, leva-nos a interpretar e a concluir, que foram estas dóceis criaturas de Deus, que com o calor dos seus corpos protegeram e salvaram o Jesus Menino dos gélidos e cutilantes frios, que fustigavam e trespassavam as frinchas das paredes feitas de madeiros mal talhados, daquele pobre e húmido estábulo de Belém.

No humilde presépio que deu origem a todos os outros presépios, a vaca e o jumento tomaram o lugar que estava destinado aos homens para a recepção do Deus feito homem. Por isso, eles são dignos de estarem tanto nos nossos presépios como a estarem nas nossas mentes. Tanto mais, que a eles poderemos também lhes atribuir o simbolismo de representarem tanto o povo eleito, como também o de representarem o povo pagão, ou seja, eles são o símbolo da humanidade universal. O jumento, que fora o eleito para carregar e transportar a Virgem Santíssima em estado de graça, numa penosa e difícil caminhada pelas vastidões do desconhecido, é o símbolo do povo cristão. A vaca, por sua vez, que lembra em todas as vertentes o boi ápis, o qual foi por muito tempo o símbolo da devoção da humanidade aos valores terrenos, é o símbolo do povo não cristão. Ao representarmos juntos estes dois símbolos nos nossos presépios, estamos a representar nada mais, nada menos, do que a humanidade universal sem diferenças de credos, sem diferenças de cor, sem diferenças de raça.

Desde esse longínquo dia do nascimento de Jesus e durante toda a Sua vida de peregrinação e pregação, Este não fez mais senão repetir o gesto do bom São José. Bater com insistência e perseverância à porta das nossas almas, solicitando-lhes guarida e hospitalidade, por forma a que com a sua Luz a elas se funda em uma eternidade de valores e de princípios, daí, Jesus nos ter transmitido “Eis que estou às portas e bato; se alguém ouvir minha voz e me abrir a porta, eu entrarei e cearei com ele e ele comigo”.

O dia do nascimento de Jesus aqui retractado, foi como que o auspicio e o presságio de toda a sua vida, uma vez que ao longo da Sua curta existência, houve uma sucessão de recusas e de rejeições. Pelas narrações e registos bíblicos que nos chegaram até aos nossos dias, temos o conhecimento que houve a recusa dos escribas, dos fariseus, do povo judeu, dos gentios e até mesmo, no momento culminante e auge da Sua vida, teve a negação e a recusa dos Seus próprios discípulos e dos Seus próprios apóstolos.

De recusa em recusa, de rejeição em rejeição, o Menino Jesus encontrara leito apenas entre os fenos e as palhas duma manjedoira de um pobre estábulo de Belém. De negação em negação, de recusa em recusa, Jesus apenas encontrou repouso no madeiro que Lhe serviu de Cruz no Calvário.

Saibamos então abrir as portas dos nossos corações, quando Jesus junto a estas lhes bate, e saibamos também O receber e O acolher, como O souberam receber e acolher a vaca e o jumento, naquela distante, gélida e fria noite de Dezembro.

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