sexta-feira, 21 de novembro de 2008

O Relógio

Nove grossas gotas sonoras de um velho relógio de parede, algures no prédio onde habito, ressoaram e fizeram tremer as paredes do meu quarto. Nunca gostei deste som metálico e lúgubre.

Recordo-me, quando ainda em tenra idade, na casa da minha avó materna, existir um destes velhos relógios de parede, muito bonito por sinal, nas suas artísticas e elegantes talhas em mogno, num profundo contraste com todo o rústico mobiliário existente na casa de chão térreo, pobre e de interior sombrio. Os rústicos e parcos móveis desta casa de ternura e de saudade, estavam sempre mergulhados numa perpétua, permanente e teimosa obscuridade tornando-os sempre invisíveis.

Na frente da casa, apenas uma estreita porta de acesso a um comprido e interminável corredor, que comunicava com os quartos perdidos sempre em penumbras e em trevas, paradeiro de medos e assombrações, berço de histórias de arrepiar e de pasmar, que ainda hoje, torna a minha coragem rala e envergonhada, só de recordar as histórias que me embalaram nestas sombrias catacumbas.

Uma estreita janela, pertencente à sala nobre da casa, completava o seu frontispício de paredes sempre limpas e caiadas. Nesta sala, à janela, muito tempo da minha meninice ali passei, sentado num mocho a deliciar-me com os banhos de luz, que trespassavam os vitrais axadrezados da pequena e humilde janela, orlada com cortinas de renda, de uma brancura pura e imaculada, feitas com as mãos da minha avó.

Esse era o meu lugar preferido para deslumbrar com curiosidade a vida que no exterior pachorrentamente corria e desaguava num largo enorme, que na maior parte do ano estava sempre poeirento. Como uma sentinela atenta, vigiava constantemente o movimento que se fazia nesse largo, que dava pelo nome de Rossio, onde uma vez por ano e no primeiro Domingo de Setembro, se galaneava, para receber o grande acontecimento que era a feira anual e nos restantes dias do ano, o assento tanto de arraiais ciganos como de tendeiros, o que o transformava numa testemunha de costumes e de hábitos, para mim, misteriosos e desconhecidos.

Ao fundo do rossio, adivinhava-se através da penumbra das calmarias, as grandes, imponentes e majestosas torres brancas da igreja matriz, sobranceira à estrada que dá para o cemitério. A pouca distância deste templo da cristandade, as silhuetas dos topos dos ciprestes de um azul cinzento, deixava-nos adivinhar e antever que naquele local se recolhia a saudade e o descanso eterno de muitos que deste mundo já não fazem parte.

Nas minhas costas de menino, o dono e o senhor do tempo, cuja presença tiranicamente se fazia lembrar, através de um tic-tac ruidoso, compassado e ressonante, o qual, era interrompido de tempos a tempos, por gotas de som ensurdecedor e estridente. Estas badaladas vigorosas e estremecidas, quase sempre, no meu quarto de sentinela, eram acompanhadas pela minha observação, ao longe, de um cortejo de escuros vultos, séquito de alguém, que nos deixou e partiu para a sua derradeira e última morada.

Vibração mecânica, carcoma da vida, presságio fugaz da nossa existência, que teima em permanecer no meu inconsciente e que ainda hoje me atormenta, e de noite banhado em suores húmidos e frios me desperta. Este simbolismo das sonoras badaladas do relógio de parede, tem justificação e razão de ser no meu “Eu”. Pois, tanto os sons como o nosso coração têm mistérios, que entre si se relacionam muito bem e perfeitamente se ajustam. Talvez seja essa a razão, porque alguns sons agradam muito mais a esta, ou àquela pessoa. A melodia é uma escrita com sons, e esta faz com que os nossos sentimentos vibrem e despertem com a intensidade e a força da nossa sensibilidade, de harmonia com o seu enredo e o drama que elas nos contam. Esta é a razão, porque existem sons que agradam mais a uma determinada pessoa, do que a outra, uma vez que eles a umas podem encantar e derivar sonhos de embalar, enquanto que a outras, podem entediar e enfastiar, tanto pelo desconhecimento da linguagem interpretativa da sua leitura, como até mesmo pela não compreensão da sua história. Outros sons há, que podem despertar recordações, medos e fantasmas do passado, como é o caso das badaladas sonoras e rítmicas de um relógio de parede.

Cada um de nós, segundo as condições especiais do nosso estado mental e psíquico, fica mais ou menos em consonância com a linguagem de determinada harmonia e composição dos sons. Estes contam-nos sentimentos e por isso existe a possibilidade de serem afinados tanto na harmonia, como na sensibilidade que habita o nosso coração. Os sons provocados pelos relógios de parede são sons confidentes e denunciadores dos sentimentos que habitam no meu coração.

Em suma a predilecção de uma determinada melodia em detrimento de outra, permite-nos descobrir as pessoas que se acham irmanadas pelos sentimentos. Há mistérios entre a harmonia que regula o equilíbrio das notas musicais e aquela que preside ao equilíbrio do nosso "eu", que são desvendadas e descodificadas pela escolha das melodias e dos sonoros ruídos, que cada um de nós gostamos mais de ouvir e de apreciar.

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